Conto: Meu Passado me Condena (parte X)

Antes, leia:

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V
Parte VI
Parte VII
Parte VIII
Parte IX

Chegamos em casa e, após um rápido almoço sem explicações – apesar do meu pai continuar lançando olhares pro meu rosto inchado e pra mala de Victor na cozinha -, nós fomos pro meu antigo quarto e eu fechei a porta. Nos sentamos na cama e eu respirei fundo.
- Talvez você ache que eu esteja exagerando, talvez você não goste nem um pouco do que vai ouvir... – comecei, tensa, tremendo – Mas a verdade é que eu menti um bocado pra você nesse tempo que nós temos namorado, Victor. Muito mesmo.
Ele não disse nada. Apenas assentiu, uma constatação do que ele já tinha percebido sozinho em poucos dias, e eu fui em frente.
- Eu nunca fui do tipo tímida. – falei – Ou pelo menos não costumava ser. Quando eu tinha treze anos, me apaixonei por um garoto da escola, e praticamente o perseguia por todos os lugares, até o dia em que ele ficou comigo. Não durou muito mais do que algumas semanas. Logo, eu me cansei dele, e comecei a olhar pros outros.
“Antes do meu aniversário de catorze anos, eu já tinha beijado mais garotos do que a minha irmã mais velha. Então eu conheci a Anita, que me apresentou pra Priscila e pra Ítala, e logo nós éramos as tops do colégio. Eu ia em festas todo final de semana, e a Mãe Idira sempre cobria a minha retaguarda, até me ajudando a fugir quando meu pai não queria que eu saísse. Acho que é por isso que ele sempre foi tão ingênuo pras coisas que eu aprontava.”
Respirei fundo, esperando alguma reação dele. Até agora, ele estava numa boa.
- Eu acabei me tornando a garota mais fácil e mais terrível da cidade. – continuei – Aos quinze, eu já tinha as piores notas e as piores companhias. Não tinha uma festa em que eu não ficasse bêbada, um cara que eu já não tivesse beijado. O Tim, o Wellington, eles foram só dois da quantidade de caras que passaram por mim.
“A Mãe Idira e minha irmã cuidavam pra que nada chegasse aos ouvidos do meu pai, mas todo mundo sabia quem eu era. Todo mundo falava de mim. Eu achava tudo aquilo o máximo, me sentia uma celebridade. A rainha das idiotas, provavelmente. As fofocas aumentavam cada vez que eu dava um escândalo novo, desde ser pega fumando nos terrenos da escola, até quase entrar em coma alcoólico por ter bebido demais.”
Agora sim ele demonstrava alguma coisa. Victor estava com ambas as sobrancelhas erguidas, parecendo completamente perplexo. Demais pra imagem de boa moça que eu pregava pra ele, não é?
- Só que a coisa piorou quando eu estava pra fazer 17 anos. – falei – Eu conheci um outro cara, uma novidade. Nessa de beber e beijar, nós meio que acabamos... indo longe demais.
- Você... – ele começou a dizer, alto. Então parou, pôs as mãos no rosto e balançou a cabeça – Você mentiu sobre ser virgem?
- Eu disse que você não ia gostar. – murmurei, então respirei fundo – Só... me deixa terminar, ok?
- Certo.
- Bom, aquela noite foi uma bagunça. Eu não me lembro de muita coisa. Só sei que no outro dia, eu acordei com ele, e saí da casa dele às pressas.
“Foi esse o problema. A dona Lourdes, antiga inimiga minha e fofoqueira de plantão, estava passando na rua e me viu fugindo. Ela soube de primeira o que tinha rolado ali, e começou a comentar. O problema só fez aumentar quando, cerca de dois meses depois, eu me dei conta de que a minha menstruação não vinha, e comecei a ficar preocupada.”
O rosto de Victor dizia justamente o que eu tinha gritado quando fiz o teste de farmácia: por favor, isso não pode ser verdade! Mas era. Meu rosto ruborizado ficou ainda mais vermelho, e eu deixei algumas lágrimas escaparem.
- As coisas fugiram do meu controle, e eu contei ao único possível pai da criança. – prossegui – Ele me tratou como uma vagabunda. Me enxotou dali dizendo que ele não tinha nada com isso, que eu nem podia garantir que o filho era dele. Foi naquele dia que eu percebi o que eu tinha feito com a minha vida.
“Eu nunca descobri como foi parar nos ouvidos da dona Lourdes, mas isso nem faz mais diferença. Ela descobriu e, um dia, andando na rua, ela me encontrou e ameaçou contar pro meu pai. Eu entrei em desespero. Já estava começando a crescer, logo ia ficar difícil de negar, mas por mais que Mãe Idira me implorasse que eu devia dizer logo tudo, eu não queria que ele soubesse. Eu não queria ter aquela criança.
“Fiquei assustada com a chance de que aquela velha horrorosa abrisse a boca, e chamei Anita e as garotas pra preparar um bom susto nela. À noite, eu, ela, Priscila e Ítala fomos até a casa dela, e pichamos, riscamos e quebramos o carro. Fugimos antes que ela chamasse a polícia, mas não rápido o bastante pra impedi-la de dar queixa.
“Eu fui a única a ser acusada e a única a ir presa. Disso o meu pai ficou sabendo, e nunca o vi tão furioso do que quando teve que ir pagar a minha fiança, além de todo o dinheiro que gastou pra recompensar a velha. Mas ela entendeu o recado e ficou de bico calado. Meu estresse era tamanho que em poucos dias, Mãe Idira teve que chamar uma ambulância, porque eu estava sangrando sem parar.”
Eu não tinha coragem de olhar pra ele. Eu nunca tinha dito nada a ninguém, e contar tantos podres justamente pra ele era uma missão difícil de encarar de queixo erguido. Respirei fundo, tentando parar a enxurrada de lágrimas.
- Tive sorte de o meu pai nunca ter descoberto a verdade. Nem sei o que contaram pra ele. – solucei – Mas quando saí daquele hospital, as coisas não eram iguais. Eu não saía tanto, não olhava mais pra ninguém. Eu tinha vergonha de ser quem eu era, só queria começar de novo. Então comecei a estudar pra entrar numa faculdade pública, longe daqui.
“Me senti aliviada quando fui aprovada, e ainda mais quando subi no ônibus e dei adeus a essa cidade. O tempo todo, eu só pensava em não me envolver em encrencas, em andar com as pessoas certas, em ser uma garota melhor. Então você apareceu, e apesar de todo o meu medo e de todas as mentiras... você foi a única coisa certa que eu fiz na vida, Victor!”
Ele sorriu pra mim. Então me abraçou e me deu um beijo no ombro.
- Eu estou feliz que você tenha se aberto comigo. – disse, no meu ouvido – E eu não ligo pra nada do que aconteceu, sabia?
- C-como? – solucei, soltando-o pra encará-lo melhor – Como não?
- Sem isso tudo que você me contou, você não seria quem você é hoje. – Victor me disse, calmamente, acolhendo meu rosto entre as suas mãos – Eu talvez nem tivesse te conhecido. Sem esse monte de erros, você não seria a garota que eu amo hoje.
- Então você me perdoa por tudo? Pelas mentiras, pela falsidade...?
- Você nunca fingiu ser uma coisa que você não é, Karine. Essa pessoa que eu conheci e por quem eu me apaixonei, ela é a versão nova e melhorada de você mesma. Você me escondeu muita coisa, mas agora não faz mais diferença. E quer saber?
- O quê?
Ele me olhou e me deu um selinho, me fazendo sorrir.
- Eu te amo mais agora por ter sido tão forte. – falou.
Eu o abracei de novo, finalmente deixando de verdade para trás meu passado, minha vergonha, e a velha Karine.

FIM



Comentem, galera :) quero muito saber o que vocês acharam!
Beijões

Um comentário:

  1. Nooooooooooooooossaaaaaaaaaaaaa!!!! EU QUERO UM VICTOR PRA MIM!!!!!!! hahahahahaaha
    É estilo nerd(amoooo), compreensivo... OMG!!
    Pq seus personagens tem que ser perfeitos assim? rsrsrs Primeiro o Diego, agora o Victor... aiaii, só me fazem suspirar.. hahahahaha
    adoreeeei esse conto, vc escreve MUITO bem!!! Parabéns, maninha... =D

    Beijos!
    Marcielle

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