O Diário (nada) Secreto - Capítulo 11

Conheça O Diário (nada) Secreto

Capítulo 1 - Recepção Calorosa

Capítulo 2 - Jogo de Interesses

Capítulo 3 - As sete coisas que não se deve fazer em uma festa

Capítulo 4 - A semana seguinte

Capítulo 5 - Cíúmes

Capítulo 6 - Proibido é mais gostoso

Capítulo 7 - Quem tem medo do lobo mau?

Capítulo 8 - Verdades e Declarações

Capítulo 9 - Junina

Capítulo 10 - Beach, Bitch!

Capítulo 11 – Dia dos Pais Mal-Assombrado


Minhas férias estavam arruinadas a partir do momento em que eu subi no ônibus. Minha mãe deixou para fazer as perguntas quando eu estava em casa, mas eu não estava em estado emocional de responder.
Passei dias chorando e ignorando ligações. Depois de um tempo, eu não atendia mais nenhuma, não importava que número aparecesse no identificador de chamadas. Eu simplesmente queria ficar quieta, na minha, em casa enquanto ainda podia.
Porque logo, eu teria que voltar pra escola. Eu estava considerando mudar de escola, de cidade, de país naqueles dias, mas sabia que não ia rolar. Eu estava condenada a voltar pro Santa Rita em algumas semanas e encarar tudo de que eu estava fugindo: meus amigos, minhas primas, e, principalmente, o Edson.
Como ele tinha feito aquilo comigo? Depois de tudo? Depois do que ele me disse, depois da nossa conversa, depois do nosso dia juntos? Depois de tudo ter começado a dar certo, como ele tinha tido coragem de estragar tudo de novo?
E pior, como eu ia agir quando o visse de novo?
Eu estava certa de que não tinha condições de me segurar quando isso acontecesse. Porque, por mais que eu estivesse magoada, eu gostava dele o suficiente pra simplesmente... me atirar nele assim que o visse. Eu sei. É patético. Mas acho que quando a gente gosta de alguém, não tem limite entre o que é racional e o que o coração manda. Só se faz e ponto.
E eu realmente não queria ultrapassar minha barreira racional e fazer algo de que eu pudesse me arrepender.
O primeiro dia de aula do segundo semestre chegou, e eu não estava preparada psicologicamente para ele. Respirei fundo quando o ônibus chegou, já sabendo que teria que enfrentar uma Bela furiosa por eu não atender nem retornar suas ligações, e por ter que passar pelas minhas primas, que já deviam estar no ônibus.
Pra minha sorte, a Bela tinha pego o terceiro assento pra nós. Me joguei e afundei, antes que ela pudesse dizer (ou gritar):
- ONDE VOCÊ ESTEVE?
Em casa morrendo? Aproveitando minha própria tristeza e solidão? Sucumbindo à minha loucura interior, depois dos piores, e também melhores, quatro dias da minha vida?
Tudo isso seria resposta, mas duvido que fosse uma que a Bela fosse aceitar.
- Desculpe. – pedi, então, tão baixo que ela poderia não ter me escutado – Eu tive um mês difícil.
- UM MÊS DIFÍCIL? – acho que ela não conseguia escutar a própria voz. Ou não percebia que pessoas ali dentro estavam ouvindo – VOU TE CONTAR O QUE FOI UM MÊS DIFÍCIL! VOCÊ TEM IDÉIA DO QUANTO EU PRECISEI DE VOCÊ?
Eu não estava triste demais pra ficar indignada, contudo.
- Desculpe, Belatriz Fernandez da Costa, mas você não foi a única a precisar de alguém, certo? – eu não estava gritando, mas quase. Todo mundo no ônibus tinha parado de respirar pra nos ouvir, o que não era difícil – É uma pena que você seja egoísta demais pra entender que o mundo NÃO GIRA EM VOLTA DE VOCÊ, droga!
Então me levantei e mudei de banco.

Será que você pode me desculpar? Eu fui uma idiota.
Você é sempre uma idiota. Bela. Me deixa em paz. Eu preciso ficar quieta.
Lolita, é a quinta aula e você não abriu a boca ainda. Todo mundo já tentou falar com você. Dá pra ficar mais quieta que isso?
Amassei o papel e deixei-o de lado na mesa.
Contive uma lágrima a tempo e me segurei. Eu não precisava dar escândalo. Não depois da minha manhã turbulenta no ônibus, onde eu já tinha virado assunto pra todo mundo.
Bela que me desculpasse, mas eu não precisava dela agora, nem dos seus problemas sempre iguais. Eu precisava era ficar na minha.

Três dias inteiros se passaram desse jeito.
Eu ia pra escola muda e saía sem emitir um som. Lana tentou falar comigo, mas eu não dei ouvidos. Do mesmo jeito como não prestei atenção quando foi a vez da Sabrina. Tudo o que eu enxergava era o rosto inexpressivo da Giovanna quando olhava pra mim, e toda a dor na expressão do Edson.
Mas era meio tarde pra doer. Ele já tinha me machucado. Eu não ia perdoá-lo por isso.
Por mais que todo o meu coração quisesse.

Sexta-feira, eu ainda estava quieta.
Era cômodo não falar nada, mas já estava virando uma rotina chata. Bufei quando o interfone tocou, dizendo que tinha uma moça ali pra me ver. Pensei que devia ser a Bela, ou a Lana, então nem pensei em pedir um nome antes de deixar subir.
Mas quando eu abri a porta, não era nenhuma delas quem estava ali. Nem perto de disso. Considerei seriamente fechar a porta e ir pro meu quarto chorar, mas ela já estava ali, em pose de modelo, vestida pra matar – como sempre – e me olhando com o rosto sério.
Giovanna.
- Posso entrar? – perguntou, nem sei quanto tempo depois.
Mentalmente, eu dizia vários nomes nada legais. Mandava ela pro inferno, batia a porta na cara dela. Podia até imaginar como seria se nós duas saíssemos no tapa ali, no meio do hall. O escândalo, os gritos, os vizinhos olhando.
Mas eu sempre fui educada demais pra minha própria saúde mental, então, eu apenas assenti e dei espaço pra ela passar.
Minha prima entrou e jogou a bolsa no sofá. Eu fechei a porta com cuidado, como se tivesse medo até mesmo do barulho que isso pudesse produzir. Respirei fundo, mas não conseguia sequer perguntar o que ela tinha vindo fazer na minha casa.
- Tudo bem com você? – ela me perguntou.
Cretina.
- Vou sobreviver. – eu respondi, seca – Você?
- Na medida do possível. – ela me deu as costas e andou até a janela da sala. Ficou parada ali uns minutos e voltou, parando a alguns centímetros de mim.
De repente, era como se eu não conseguisse respirar. Fosse a tensão do ambiente, fosse a minha raiva, era como se não houvesse oxigênio ou espaço suficiente pra nós duas. Eu não conseguia sustentar o olhar intenso que a Giovanna me lançava – tampouco conseguia entender o que exatamente aquele olhar queria me dizer.
Eu precisava perguntar, mas as palavras, a voz, nada saía de mim.
E aí, sem mais nem menos, ela me abraçou.
Fiquei sem reação por pelo menos um minuto. Parte de mim queria empurra-la pra longe e gritar com ela, mas minha metade racional demais pra ser violenta simplesmente indicava que eu deveria devolver o abraço primeiro pra depois dar uma de louca. Foi o que eu fiz. Eu não queria perder a razão, não quando eu era a pessoa que estava certa ali.
Giovanna me soltou depois de um tempo indeterminado. Eu ainda estava surpresa, pasma com o que tinha acabado de acontecer. Meu coração martelava forte, confuso. De onde aquilo tinha surgido? Como ela podia simplesmente me abraçar depois de tudo? Ela não achava realmente que uma droga de um abraço ia compensar tudo o que ela tinha me feito passar, achava?
- Desculpe. – ela pediu, baixinho depois de me soltar.
- Pelo abraço ou pelos últimos meses? – questionei, sem fazer a menor questão de esconder meu tom enojado. Ela precisava saber que eu não estava feliz e eu precisava demonstrar isso antes que eu ficasse maluca.
- Por tudo. – me respondeu, torcendo o nariz e franzindo a testa, numa expressão de pesar que não me convencia – É sério.
- Giovanna, foi muita coisa, ta? – cruzei os braços e bufei – Não é um pedido de desculpas que compensa... tudo.
- Eu sei que eu fui uma vaca, uma chata, uma intrometida, idiota e que eu te fiz sofrer.
- Que bom que você admite.
- Só que eu realmente sinto muito, Lolita. Você é minha prima, minha amiga, e é muito mais importante do que qualquer garoto. Além do mais, não é de mim que o Edson gosta.
Aquilo só fez doer mais.
- Você deveria ter percebido isso tudo mais cedo. – afirmei, dando as costas a ela pra que não me visse chorar – Já faz mais de um mês desde a sua última mancada, Giovanna. Todo esse tempo, você poderia ter aparecido nessa porta e me dito o que você está me falando agora. Mas eu não devo ser tão importante assim, se você pôde simplesmente sentar e esperar os dias passarem.
Ela não me respondeu, e eu fiquei agradecida. Se ela dissesse alguma coisa, me faria explodir, porque eu estava tão coberta de razão que não ia suportar ser contestada.
- Lá na praia... – começou a dizer então, com cuidado – Não foi sem querer. Quando o Edson me disse que gostava de você eu fiquei... muito... muito brava. Eu decidi que ia deixar vocês dois se acertarem primeiro pra agir.
Que ótimo. Agora eu preciso saber tudo o que se passou na cabeça dela antes de ela puxar o meu tapete? Muito obrigada, Giovanna, mas o que eu preciso saber eu já sei: você é uma vagabunda!
Mas eu fiquei quieta ainda assim e deixei ela falar. Maldita educação.
- Eu queria fazer vocês dois sofrerem. – continuou, me fazendo chorar mais – E eu consegui. Depois, eu me arrependi, mas achei que vocês fossem se resolver de novo.
- Que pena que nem tudo no seu plano deu certo. – zombei, tentando não soluçar. Eu já estava fungando.
- Lolita, você não viu tudo naquele dia. – a Giovanna disse, então, e eu virei levemente para trás – Você saiu correndo, e não viu nem metade. Não viu quando ele me empurrou, nem quando gritou comigo. Não escutou as coisas horríveis que ele me disse, nem viu o desespero dele quando eu disse que você tinha visto tudo.
- Isso é sério?
- É! Eu nunca vi o Edson tão bravo. Ele nem esperou até que eu devolvesse o celular dele. Ele ficou tão irado... e as coisas que ele me disse quando a Sabrina contou que você tinha ido embora... – ela riu consigo mesma – Ele correu até a rodoviária atrás de você, mas o ônibus já tinha ido embora. Tentou te ligar, mas é claro que você não atendia. E depois disso, ele também voltou pra casa mais cedo.
Tudo aquilo mudou completamente minha cabeça. Ele realmente tinha feito tudo aquilo? Mas então por que...
- Então porque ele não me procurou mais? – indaguei, olhando pra Giovanna de novo. Ela mordia o lábio inferior, aflita – Por que ele me evitou tanto quanto eu o evitei na escola?
- Eu não sei. – ela me disse, balançando a cabeça – Ele nunca mais falou com nenhum de nós. Não senta nem perto da gente. Por minha causa, eu tenho certeza. – bufou – Isso tudo é minha culpa, Lolita, e me desculpe por ter sido tão vaca. Você não merece. Você gosta do Edson, e o Edson gosta de você, e vocês merecem ficar juntos.
Giovanna me abraçou de novo, e eu já sentia meu coração menos pesado. A raiva estava indo embora. Eu não precisava dizer nada em voz alta, mas lá no fundo, eu sabia que a estava perdoando.
- Eu estou oficial e definitivamente desistindo. – disse ao meu ouvido – Vai atrás dele!
Me soltou, pegou sua bolsa e foi embora.

Eu não procurei o Edson, contudo.
Eu sei. Me crucifiquem, sou uma idiota. Talvez eu realmente fosse, mas queria que ele me procurasse. Eu não tinha feito nada errado. Ele que superasse o medo, ou o orgulho, e viesse falar comigo. Eu não ia correr atrás dele.
Irônico falar de orgulho quando se é orgulhosa, não? Mas acho que eu tinha esse direito.
Além do mais, eu tinha coisas mais urgentes com as quais me preocupar naquele momento.
Como a conversa que eu e minha mãe tivemos na terça-feira seguinte. Se é que se podia chamar aquilo de conversa.
Eram oito horas, e nós tínhamos acabado de jantar comida chinesa direto do China In Box. Percebi que ela me olhava com o canto do olho, mas não disse nada. Com a minha mãe, o melhor às vezes era não pressionar.
- Seu pai ligou. – ela disse, então.
O camarão estava estragado ou era a minha boca com gosto ruim de repente?
- E? – eu falei de volta, de um jeito ríspido, tentando ignorar o fato de que a minha fome tinha ido pro espaço. E eu não estava nem na metade da caixa ainda. Geralmente eu ficava com fome até depois de comer tudo.
- Ele queria te ver no Dia dos Pais, domingo que vem.
Aquilo era demais. Soltei a caixa em cima da mesa, junto com aqueles pauzinhos legais que se usa pra comer. Eu olhava pra minha mãe com descrença.
- E é claro que você disse que eu não ia, certo? – indaguei, num tom meio ameaçador. Minha mãe baixou os olhos pra comida e pegou mais um pedaço de carne.
- Eu disse que você estaria esperando por ele na Pizza Hut. – me respondeu, e minha reação foi perfeitamente lógica, gritando:
- VOCÊ FICOU MALUCA?
- Baixe a voz, Carlota! – minha mãe ralhou, e eu me contive – Ele é seu pai, droga. Você vai se encontrar com ele sim, senhora!
- Ele não é meu pai só porque assina um cheque todo mês! – antes que eu percebesse, já estava de pé. E minha mãe estava furiosa.
- E é esse cheque todo mês que ajuda a te sustentar! Sente-se! – obedeci – Agora, eu sei que ele não é sua pessoa favorita no mundo...
- Ele não aparece há cinco anos!
- ...Mas se ele ligou, quer dizer que ele está tentando. Então você vai até lá, banca a filha legal, volta pra casa e assunto encerrado!
Um silêncio tenso caiu sobre nós, e eu não disse nada por uns bons instantes, minha cabeça girando. Aquilo tudo era tão ilógico. Minha mãe, mais que qualquer pessoa, devia me apoiar na decisão de ficar longe dele. Ela tinha que me entender. Por que estava fazendo aquilo comigo?
- Ele é seu pai, Lolita. – minha mãe disse, de novo, após um bom tempo – Só faça o que ele pediu, certo? Só estou te pedindo pra fingir por algumas horas que vocês são pai e filha no próximo domingo.
- É pedir demais! – exclamei, mal humorada, e levantei de novo – Perdi a fome. – foi tudo o que eu disse antes de ir pro meu quarto.

Eu ainda não acreditava no que eu estava fazendo quando minha mãe me deixou na Pizza Hut, dez minutos antes do horário combinado.
Na porta, dei o nome do meu pai, e fui levada até uma mesa para quatro pessoas reservada aos fundos do restaurante, na janela. Pus minha bolsa na cadeira ao lado e me sentei, me perguntando qual o propósito de pegar uma mesa pra quatro se éramos apenas dois.
Mas meu pai era maluco mesmo. Certas coisas não se discutem.
Cinco minutos depois de eu ter chegado, já estava entediada. Pedi uma coca e peguei meu MP3. Red Hot Chilli Peppers não serviu pra melhorar o meu humor.
Dez minutos depois, nada.
Perdi as contas de quantas músicas eu tinha escutado, mas tinha ido de RHCP pra Christina Aguilera. Quando me lembrei que “Hurt” era basicamente uma música que se referia a saudade de um pai – provavelmente o dela – bufei e mudei de música. Eu definitivamente não me sentia daquele jeito com relação ao meu pai.
Mais quinze minutos. Pedi outra coca.
Vi os empregados irem e voltarem, vi as pessoas entrarem, comerem e saírem. Preferi nem consultar o relógio, com medo de passar raiva demais a ponto de começar a gritar.
Então o telefone tocou. Atendi sem pensar duas vezes.
- Filha, tudo bem? – meu pai disse, do outro lado da linha. Num tom que dava a entender que, pra ele, não havia nada errado.
- Onde você está? – eu quis saber, ignorando sua pergunta – Eu estou sentada nesse restaurante há quase uma hora!
- Eu tive um imprevisto, filha. – ele respondeu, e eu senti a raiva se acumular na minha garganta – Não vou poder ir.
O impulso de gritar e quebrar tudo à minha volta era enorme, mas eu resisti. Ao invés disso, senti toda a raiva sendo canalizada pros meus olhos, em forma de lágrimas.
- Tanto faz. – afirmei, numa voz dura, entrecortada pela raiva – Você nunca aparece mesmo.
Desliguei o telefone antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Chamei o garçom e pedi a conta, ainda lutando contra as lágrimas. Deixei uma nota de dez e não esperei pelo troco antes de sair dali às pressas.
Mas para onde eu ia? Ligar pra minha mãe? Ela certamente ia me dar uma bronca quando eu contasse o que tinha acontecido, e eu não precisava de mais motivos pra ficar com raiva. Decidi pegar um ônibus para encontrar alguém com quem eu pudesse conversar.
No ponto, peguei o celular e disquei o número do celular da Bela. Foi preciso nove toques pra que ela me atendesse, a voz meio agitada.
- Lolita, eu to meio ocupada aqui. – ela me disse, sem nem se preocupar com a boa educação de dizer pelo menos um “alô”.
- Desculpa. – eu respondi, enquanto deixava as lágrimas caírem. Minhas mãos tremiam de raiva.
Desliguei. Entrei no primeiro ônibus que parou, pensando em quão burra eu devia ser pra escutar a minha mãe e me dar àquele nível de humilhação. Era ridículo que eu esperasse que meu pai realmente aparecesse depois de tanto tempo. E era ainda mais ridículo admitir que um pedaço de mim realmente tinha esperança, vontade de que ele aparecesse.
Eu era tão burra!
Todo mundo no ônibus me olhava enquanto eu fungava. Curiosidade, pena, espanto, repreensão. Eles não faziam idéia do que eu estava passando.
Então, meus olhos molhados e cansados enxergaram o sobrado de pedra que sequer tinha passado pela minha cabeça até então. Dei sinal pro motorista parar, e ele o fez, metros adiante. Desci e corri de volta pro sobrado, apertando a campainha com força.
Eu estava soluçando incontrolavelmente quando Edson abriu o portão e veio me receber.
Fiquei agradecida pela sua ausência de palavras enquanto me deixava entrar e me acompanhava até a sala. Edson sentou comigo no chão, com as costas apoiadas no sofá, e me deu colo enquanto eu chorava, sem dizer uma só palavra.
Não faço idéia de quanto tempo se passou até que eu parei de chorar e me controlei. Me levantei e fui até o banheiro, lavei o rosto e assoei o nariz. Meu reflexo no espelho me mostrava minha cara, já redonda, inchada e vermelha, os olhos cansados, o nariz escorrendo.
Não era uma visão muito agradável.
Voltei pra sala. Edson não tinha se mexido muito mais do que se ajeitar, sentado no sofá. Respirei fundo e me sentei ao lado dele, juntando as pernas e abraçando os joelhos.
Ele me olhou com cuidado e curiosidade por uns instantes. Parecia querer me decifrar antes que eu pudesse dizer alguma coisa. Como se estivesse tentando adivinhar o que eu estava pensando, como a gente costumava fazer quando éramos melhores amigos. Eu sempre ganhava.
- Vai me dizer o que aconteceu? – ele perguntou, então, em tom baixo e tranqüilizador. Tentou alcançar minha mão, mas eu não deixei.
- Foi... – bufei – Horrível.
Descansei o queixo nos joelhos enquanto falava. Falei de como tinha sido horrível aquela semana, da conversa que eu e Giovanna tínhamos tido, do meu sentimento sobre o meu pai e como ele tinha me largado sozinha lá, esperando.
Então parei de falar e ficamos assim, num silêncio confortável, por um ou dois minutos. Suspirei, subitamente me sentindo cansada.
- Obrigada por ter me escutado. – falei, baixinho – Eu estava precisando.
- Sinto muito por tudo isso. – o Edson me disse, então – Principalmente pela parte que me envolve.
Olhei pra ele, no fundo dos seus olhos escuros. Ele parecia em agonia. Percebi que eu não ia escapar por nem mais um instante daquela conversa inevitável, e percebi que não queria.
Porque, graças a essa confusão toda, minha mente estava mais clara. Eu sabia exatamente o que precisava e iria falar agora.
- Eu fui um idiota, Lolita! – exclamou, com veemência – E mais de uma vez. Eu te machuquei, e fiz isso de novo, e eu nunca vou conseguir falar o quanto eu me arrependo disso!
Eu apenas o olhei de volta, lábios crispados, esperando eu ele terminasse de dizer o que tinha pra dizer.
- Eu sei que eu não mereço e você tem todos os motivos do mundo pra me odiar pro resto da sua vida, mas será que você consegue me perdoar por isso? – pediu, então. Uma súplica.
- Eu te perdôo. – eu respondi. Ele sorriu e, sem aviso prévio, me abraçou.
O abraço, o seu cheiro, o seu toque, me fizeram derreter. Me recompus rapidamente e então o soltei.
- Mas eu não esqueço. – acrescentei, e o Edson tornou a fechar a cara.
- Eu entendo... – disse, mas pelo seu tom, estava óbvio que ele não entendia. Respirei fundo de novo.
- Edson, foi difícil, ok? – abracei os joelhos de novo, com medo de chorar de novo – Eu só acho que... talvez não seja a nossa hora.
- O que você quer dizer com isso?
- Que eu acho melhor a gente começar de novo. Sei lá, retomar a confiança, a amizade, e então a gente vê no que isso vai dar. – encostei a testa nos joelhos – Eu não quero me machucar de novo, eu não consigo me propor isso. Eu quero ter certeza de onde eu to pisando.
Senti sua mão quente na minha nuca, e ergui a cabeça. Ele estava bem perto de mim agora, mas não fazia nada além de acariciar a minha cabeça e sorri de um jeito fraco.
- Vai ser do jeito que você quiser. – me disse – Eu não vou desistir de você, Lolita. Vou fazer o que for preciso. Só precisa me dizer o quê.
- Então me ajude a confiar em você de novo. – pedi, tocando seu rosto de leve, rapidamente – Só isso.
Eu não disse mais uma palavra. Me levantei, decidindo que era hora de ir embora, e ele não tentou me conter. Levantou-se comigo, me levou até o portão e me assistiu partir.

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