Amor Plus Size - primeiro capítulo


Inscreva-se no canal pra ficar sempre por dentro das novidades
Adicione Amor Plus Size no Skoob - Divulgue com a tag #AmorPlusSize no Twitter

Para ler o capítulo na íntegra, continue lendo o post :)


Amor Plus Size - Capítulo 1

- É melhor a gente correr porque senão a Maitê vai comprar a cantina inteira e a gente vai ficar chupando o dedo! – ouvi a vozinha aguda e desagradável da Maria Eduarda logo atrás de mim.
Fiquei vermelha feito um pimentão, mas não respondi nada. Fazia muito tempo que eu tinha desistido de responder às provocações dela. Desde que ela tinha entrado na minha classe, quando nós duas estávamos na quarta série, a Maria Eduarda me pegava pra Cristo. A necessidade dela de me pisotear só tinha piorado com o tempo, conforme as nossas diferenças aumentavam; éramos tão opostas quanto era possível ser. Enquanto eu há muito já tinha passado da marca dos noventa quilos, ela ainda conservava seus cinquenta com perfeição. Os olhos dela eram tão castanhos quanto os meus eram verdes, o cabelo louro tão fantástico e liso quanto o meu era ondulado, castanho e sem vida. Ela passava as tardes fazendo as unhas e assistindo Gossip Girl, enquanto eu preferia roer as minhas e assistindo Game of Thrones. Essas diferenças não seriam nada se ela não fosse uma pessoa tão horrorosa. Mesmo assim, eu tentava ao máximo não retribuir cada punhalada que ela me dava todo santo dia.
Não que eu não quisesse dar um soco no meio daquele focinho magrelo dela, claro. Mas, diferente dela, a minha mãe tinha me dado alguma educação.
Esperei que ela e a corja de varetinhas passasse, e só então saí do lugar. Mal levantei e tropecei, quase caindo de cara no chão. Os meus poucos colegas ainda em sala riram de mim e foram embora. Olhei pros pés e vi o cadarço desamarrado. Maldito! Eu gostaria muito de ter um daqueles tênis com velcro ao invés de cadarços!
Pacientemente, me sentei e puxei outra cadeira pra dar apoio. Amarrar o tênis era sempre um saco, porque exigia um esforço tremendo para que eu alcançasse o pé. Tênis amarrado, saí, apagando a luz da sala e fechando a porta atrás de mim.
Encontrei minhas duas melhores amigas, Valentina e Josiane, já esperando por mim no pátio. Eu estava morrendo de fome, mas a Maria Eduarda ainda estava na fila da cantina. Por isso, quando a Josi se ofereceu pra me trazer algo pra comer, rapidamente concordei – era melhor do que as piadinhas que sempre vinham quando eu voltava com o meu lanche.
- Você está com uma cara horrorosa! – a Valentina disse, torcendo o nariz. Ela também estava, pensei, mas eu jamais diria isso a ela. Valentina era uma das minhas melhores amigas e eu a amava, mas nunca teria coragem de dizer que não era uma boa ideia colocar um piercing num nariz tão grande quanto o dela, ou que ela exagerava no blush. Ela podia ser extremamente dada a jogar verdades na cara dos outros, mas eu não.
- Nenhuma novidade nisso. – resmunguei, olhando o movimento do pátio sem nenhum grande interesse. Na verdade só tinha uma pessoa que eu gostaria que os meus olhos encontrassem, mas ele não tinha vindo pra escola. Logo, não havia nada pra olhar.
- Duda de novo?
- Maria Eduarda. – corrigi. Eu me recusava a chamá-la de Duda. Nós não éramos amigas, e eu não precisava de nenhum apelido pra me referir a ela.
- Tá, que seja. – Valentina rolou os olhos – Você precisa mesmo parar de dar atenção ao que ela diz.
Eu ia responder, mas vi a Josi voltando com as nossas coisas, mal conseguindo carregá-las. Um pão de queijo pra ela, um refrigerante, um cachorro-quente e dois bombons pra mim. A quem eu estava tentando enganar?
- Ela não fala nada de muito absurdo.
- Ela é uma escrota. – Valentina afirmou, naquela convicção que não abria espaço a discussões, como só ela sabia fazer – Ela me chama de Pinóquio desde a quinta série. E outro dia ela dispensou um cara só porque ele tinha sobrancelhas grossas demais. Ela é uma mal amada que acha que é a princesa do reino dos perfeitinhos.
- De quem nós estamos falando? – a Josi perguntou, enquanto se sentava.
- Maria Eduarda. – respondi, e ela franziu o cenho.
- Ela é uma babaca.
Pausa. E então nós três começamos a gargalhar.
Às vezes parecia que o destino tinha jogado a Josi e a Valentina na minha vida de propósito, pra me ajudar a sobreviver ao inferno chamado Ensino Médio. Eu as havia conhecido há três anos, durante o campeonato interclasses da escola. Eu estava no time de handebol, e a Maria Eduarda tinha jogado uma bola na minha cara. Ela tinha lançado com tanta força que fez meu nariz sangrar. Então fui mandada pro banheiro, ela continuou no time e ninguém mais tinha se incomodado em tocar no assunto. Quando entrei no vestiário, com o rosto sujo, o nariz sangrando e os olhos lacrimejando, dei de cara com a Val e a Josi lá dentro. Na época, eu não tinha ideia de quem elas eram – a Josi era uma morena, de cabelos muito escuros domados na base da chapinha, baixinha e desproporcionalmente bunduda, que eu nunca tinha visto na vida, e a Val era a Pinóquio, a garota cujo excesso de acne, as sobrancelhas grossas demais e o nariz reto e enorme a tinham colocado no radar da Maria Eduarda.
Mas quando entrei chorando naquele banheiro, isso não fez a menor diferença. Pra elas eu não era a Maitê, a gorda do nono ano; eu era uma garota que estava machucada, chorando e precisava de ajuda. Então elas me ajudaram. E me ouviram. Eram minhas maiores (e únicas) amigas dentro daquela escola desde então.
- O que foi que ela disse agora? – a Josi quis saber, mas eu dei de ombros, encarando o meu cachorro-quente. Eu estava morrendo de fome e de vontade, mas só de lembrar da voz irritante daquela garota, já estava me sentindo culpada .
- Quem se importa? Vamos falar de outra coisa? – sugeri, e então mordi meu sanduíche. Maravilhoso, como sempre. O que só fazia piorar a minha culpa.
A Valentina, pra minha eterna gratidão, puxou assunto de uma fofoca escolar qualquer, e passamos o resto do intervalo falando mal dos outros. Quando tocou o sinal, eu as acompanhei até a sala do segundo ano antes de seguir pra minha. Todos os dias, pensar que eu estava na contagem regressiva para os seis meses finais do terceiro ano não fazia com que eu me sentisse melhor. Era horrível estudar praticamente sozinha. Tirando a Val e a Josi, eu não tinha amigos no meu colégio, muito menos na minha classe. O melhor que eu podia esperar dos meus colegas era que eles ignorassem a minha existência – e nem sempre eu conseguia esse feito.
Quando cheguei, a professora já estava em sala, escrevendo na lousa, e me olhando feio pelo atraso.Sentei, ignorando o olhar dela e de todos os outros. Peguei meu caderno, puxei uma caneta e fiquei rabiscando estrelas no topo da página enquanto a professora escrevia. Quando ela terminou e olhei pro quadro, tive vontade de sair correndo.
Três palavras que tornavam a minha vida impossivelmente ruim.
“Trabalho em dupla.”
Maravilha, mesmo.
Em menos de dois minutos, mãos se erguiam com nomes e mais nomes, pessoas formando duplas só pelo contato visual. Eu até tentei olhar pros lados, mas até a Carminha, a garota nerd e completamente muda que se sentava na última cadeira da última fileira da sala, encolhida como se tentasse se fundir à parede, já tinha uma dupla. Que inferno! E o pior era que a minha turma tinha um número par de alunos, então fazer trabalho sozinha nunca era opcional. Eu ia acabar na mira da professora, que escolheria alguém pra fazer trabalho comigo. Super agradável.
- Ok, ok, alguém ficou sem dupla? – a professora perguntou. Sentindo o rosto arder, ergui a mão lentamente, escutando os risinhos abafados daquela menina encapetada – Mais alguém?
Ninguém se pronunciou. A professora olhou pro próprio diário de classe.
- Bem, Maitê, receio que você terá que fazer o trabalho com o Alexandre, já que ele faltou e não é dupla de ninguém. Não se esqueça de avisá-lo, hein?
Meu mundo parou. Meus olhos escorregaram de repente para a cadeira vazia, na fileira ao lado, onde ele se sentava. Eu ia fazer dupla com o Alexandre. O Alexandre ia fazer dupla comigo.
A professora começou sua aula, mas eu simplesmente não conseguia prestar um mínimo de atenção. Ainda estava tentando processar o fato de que eu ia fazer um trabalho com o Alexandre. O que queria dizer que eu ia falar com ele, e que ele ia ter que falar comigo. Eu e o Alexandre. O Alexandre e eu. Meu Deus, isso era muito surreal!
Digo, eu era apaixonada por ele há, sei lá, anos? Ele tinha entrado no colégio na sétima série, e naquela época já era lindo. De lá para cá, tinha se tornado o cara mais gato de toda a escola. Eu vivia só pra ver ele passar, mas nunca, absolutamente nunca tinha trocado uma única palavra com ele. Eu duvidava até que ele soubesse o meu nome.
Eu estava com vontade de pular pela janela e morrer. Como eu poderia simplesmente cutucá-lo e dizer “então, vai ter um trabalho de geografia, e você é a minha dupla”? E pior, como eu ia conseguir fazer um trabalho com ele se eu mal conseguia disfarçar o efeito que ele tinha sobre mim?
Cara, eu estava tão ferrada!
Pelo resto do dia, consegui ignorar as piadinhas e as risadinhas da Maria Eduarda -  colocada pelo destino cruel e pela professora de matemática para se sentar logo atrás de mim no mapa de classe -mas também consegui ignorar 100% do conteúdo de aula. Parecia impossível me concentrar nas explicações quando eu tinha um abacaxi daqueles na mão. Eu e Alexandre dividindo um mesmo espaço pra fazer um trabalho juntos. Nunca achei que isso fosse acontecer! Em outros tempos eu consideraria sorte, mas agora que tinha se tornado real, parecia a pior coisa do mundo!
Digo, era fácil estar apaixonada por ele quando a gente não convivia e ele não prestava atenção em mim. Eu não precisava esconder nada, nem me controlar, e tampouco precisava dizer a verdade porque ele não me conhecia, Era totalmente diferente tendo que falar com ele. E se ele não fosse com a minha cara, ou se ele não gostasse de mim nem como colega de classe? Pior, e se ele fosse uma Maria Eduarda da vida? Eu não ia aguentar!
Bufei, tentando afastar tudo aquilo da cabeça. Eu estava sendo ridícula. Era uma porcaria de um trabalho de geografia, pelo amor de Deus! Nós não íamos conviver. Nós não íamos nos tornar amigos. Tipo, eu, amiga do Alexandre, rá! Parecia uma piada! Eu ia comunicá-lo da infeliz decisão da professora e ele ia fazer um muxoxo. Nós ficaríamos uma tarde na escola fazendo pesquisa, talvez trocássemos alguns e-mails pra fazer o trabalho, íamos entregar tudo e nunca mais iríamos nos falar.Era assim que as coisas funcionavam. Pelo menos na minha vida.
Quando o sinal tocou e vi o pessoal se levantando pra ir embora, demorei quase cinco minutos pra me tocar de que o dia tinha acabado – amém! Recolhi minhas coisas e, como de costume, saí por último. Minha mãe estava me esperando na saída, como todos os dias, com o Lucca, meu irmão pentelho de dez anos, já sentado no banco traseiro, pulando e reclamando que estava com fome.
- Você demorou! Assim a gente vai se atrasar! – minha mãe ralhou, logo que entrei no carro. Eu ainda estava meio atordoada, então só consegui perguntar:
- Atrasar pra quê?
- Pro médico, ué! – o carro entrou em movimento assim que fechei a porta – Vou deixar o seu irmão na casa da vó Lúcia e a gente sai correndo.
Médico? Que médico?
Então me lembrei que hoje era dia da maldita consulta mensal com a tal endocrinologista que minha mãe tinha me arrumado há uns três meses, na sua mais nova invenção pra tentar fazer com que eu perdesse peso. Saco!
Como sempre, eu não podia reclamar, então joguei a mochila no banco de trás, e adormeci no banco, remoendo a fome e tudo o que eu sabia que a médica iria me dizer de ruim. Ela e a minha mãe podiam ser irmãs de tão insuportavelmente chatas que eram. Estavam de mãos dadas na incrível missão de tornar a minha vida um inferno diet.
Quando acordei, minha mãe estava me cutucando com uma barrinha de cereal que não parecia nem um pouco apetitosa. Como eu sabia que só poderia comer quando chegasse em casa, engoli aquele troço rançoso imaginando que era uma barra de chocolate, sem a menor esperança de que aquilo fizesse o gosto mudar. Mamãe estacionou em frente à clínica, descemos e logo me sentei novamente, numa daquelas cadeiras desconfortáveis e gélidas de salas de espera.
A rotina já me era conhecida, mas nem por isso havia se tornado menos chata: sentar, preencher aquela fichinha irritante, e esperar por mais ou menos uma hora além do horário em que você deveria ser atendido. Toda vez era assim, e toda vez eu ficava irritada. Eu não era exatamente pontual, mas esperava que pelo menos os médicos tivessem algum tipo de consideração com horários. Fosse como fosse, sentei e esperei, lutando contra o sono enquanto tentava extrair uma leitura labial da TV, que apesar de ligada num jornal qualquer, não emitia um só ruído.
Então finalmente, com impressionantes quarenta e oito minutos de atraso (fora os quinze minutos que havíamos chegado antes do horário marcado), fui chamada. Escoltada pela minha mãe, fui ao consultório, onde a doutora já estava à minha espera, com os seus cabelos ruivos tingidos presos num coque e aquela falsa cara de boazinha. Na real, ela era o capeta em forma de gente.
- Tudo bom, querida? – ela perguntou, quando entrei. Acenei, mas não respondi. Mamãe mal tinha fechado a porta quando ela perguntou – E então, como está a dieta?
Abri a boca pra falar, mas minha mãe foi mais rápida. Eu odiava aquela mania idiota dela de responder quando a pergunta tinha claramente sido dirigida a mim. Mas fiquei quieta, enquanto ela fazia seu discurso.
- Bom, ela teve um pouquinho de progresso. Já está comendo salada junto com as refeições e consegui cortar o refrigerante.
- Bom, muito bom. – a médica concordou, anotando qualquer coisa que pra mim só se pareciam com rabiscos.
- Mas ela não quer fazer exercícios. Inventa uma desculpa pra tudo!
- Não é bem por aí... – comecei a falar, mas ela me cortou. Pra variar.
- É por aí, sim senhora! Academia, não quer. Natação, não quer. Dança, não quer. Dar uma voltinha no condomínio com aquele seu amigo desocupado, não quer.
Tive vontade de dizer algumas palavras bem feias, especialmente sobre ela meter Isaac no meio daquilo, mas fiquei quieta. Barraco no consultório era tudo de que eu não precisava.
- Eu tento explicar que ela não vai perder peso se não fizer exercícios, mas ela não me escuta.
- Sua mãe tem razão, Maitê. – a médica concordou, e me perguntei por que a minha mãe não se separava do meu pai e se casava com aquela megera. Elas claramente tinham sido feitas uma pra outra – Só a dieta não resolve! Você precisa fazer algo pra acelerar seu metabolismo.
- Tá. – murmurei, olhando pra baixo.
- Promete que vai tentar?
- Tá.
- Ok! Vamos pesar? Pode tirar a roupa!
Quis me enterrar ali mesmo. Aquela era sempre a parte mais humilhante. Não só porque eu ficava de calcinha, sutiã e meia na frente da médica, mas porque ela fazia questão de anunciar meu peso tão alto que eu tinha certeza de que toda a zona sul de São Paulo podia escutar.
Mesmo assim, me despi e subi na balança gelada, que sempre chacoalhava tanto que eu tinha a impressão de que ia cair. Fechei os olhos pra não enxergar os números, mesmo sabendo que o veredicto seria gritado a plenos pulmões em poucos instantes.
- Vamos ver... 90 e... – pequena pausa – 94 quilos e 800 gramas! Olha só, 1 quilo e 200 a menos desde a sua última consulta!
Por favor, liberem os fogos de artifício! Eu perdi um quilo em um mês!
Ela só podia estar de brincadeira, né?
Forcei um sorriso enquanto enfiava o uniforme rapidamente de volta. Meses de tratamento e eu não tinha perdido nem três quilos ainda. Ela só podia estar maluca se achava que eu ia comemorar alguma coisa. Não tinha avanço nenhum naquilo. Eu ia engordar mais 800 gramas só de olhar pro almoço quando chegasse em casa.
Quase não escutei as recomendações que vieram em seguida. Era sempre a mesma ladainha de força de vontade aliada a exercícios físicos e pouca comida. Fiquei aliviada quando enfim deixamos o consultório – ou quase. Minha mãe parecia tão insatisfeita quanto se a médica tivesse dito que eu tinha engordado vinte quilos. Preferi nem dar trela pra uma nova série de discussões, como as que tínhamos com tanta frequência sobre aquele tópico em particular. Ao invés disso, tornei a dormir assim que o carro entrou em movimento.
Chegando em casa, deixei a mochila na sala e troquei de roupa rapidamente enquanto minha mãe esquentava alguma coisa pra eu comer. O menu do dia era exatamente o mesmo da noite anterior: um bife, um ovo cozido, uma colher de arroz e salada suficiente pra manter um cavalo vivo por uma semana. Engoli aquela “monstruosa” quantidade de comida sem sabor, peguei meu material e as chaves da porta e desci pra casa do Isaac, sem avisar aonde estava indo.
Toquei a campainha menos de um minuto depois, e em questão de segundos o Rodney, o maltês irritante da família, estava latindo de maneira estridente. Isaac abriu a porta pouco depois, e o praguinha do cachorro tratou de raspar aquelas unhas afiadas nas minhas pernas, enquanto latia e puxava a barra da minha calça de moletom com os dentinhos afiados.
- Achei que não viesse hoje! – o Isaac disse, me deixando entrar. Rolei os olhos.
- Tive médico.
- Que droga! Quer almoçar?
- Sempre!
Isaac morava no apartamento exatamente abaixo do meu desde que nós dois tínhamos nove anos. A família dele tinha trocado o sol e a má situação financeira que tinham no Rio de Janeiro pelo clima instável e um emprego garantido em São Paulo.Não me lembrava exatamente como, mas tínhamos ficado amigos rapidamente. Desde aquela época, praticamente todas as tardes eu batia ponto na casa dele, simplesmente pela companhia. Ele era meu melhor amigo e eu a dele. Não havia nada sobre mim que Isaac não soubesse. E justamente por isso há muito tempo ele me esperava pra almoçar.
Compensei a falta de comida do almoço com um pouco da “Mistureba à lá Isaac”: um prato extremamente complexo que envolvia uma omelete recheada com qualquer coisa que ele achasse válida de dentro da geladeira. Enquanto ele fritava o negócio, eu fui pegando os pratos e talheres; conhecia a casa de Isaac tão bem quanto a minha, e às vezes até melhor do que ele.
- Como foi lá hoje? – ele perguntou, de repente.
- Lá onde?
- No médico, saco!
- Ah, você sabe.
- Sei.
Não falei mais nada. Eu nem precisava olhar pra ele às vezes pra que Isaac soubesse exatamente o que eu estava pensando, ou o que tinha acontecido comigo. Uma frase monossilábica muitas vezes bastava.
- Você tá legal? – ele quis saber. Pensei nisso por um segundo.
- To.
- Certeza?
- Estaria melhor se você acabasse logo de fritar essa porcaria. Quer que eu te ensine como se faz?
- Você é de uma delicadeza tão sutil que eu às vezes nem percebo, sabia?
Nós dois rimos, e ele enfim desligou o fogo. Comemos de pé, ali mesmo no balcão da cozinha.
- E aí, que mais aconteceu hoje?
Senti meu rosto esquentando e me perguntei se estava tão na minha cara assim. Eu tinha esquecido daquilo por um tempo, mas agora tudo estava voltando. Eu não queria encarar como algo maior do que realmente era, mas não conseguia evitar.
- Tenho um trabalho em dupla de geografia pra fazer.
- E daí?
- Adivinha quem é a minha dupla?
O Isaac riu e baixou os olhos.
- Coitado! Ele gritou muito?
Atirei um naco da mistureba nele. Isaac não se protegeu a tempo, e o pedaço de omelete desceu pelo seu rosto até chegar na camiseta limpa. Apesar da gracinha, nós dois estávamos rindo. Ele sempre me zoava daquele jeito, mas eu sabia que não era por maldade. Pelo menos ele, não!
- Ele nem estava lá! Nós dois sobramos, aí deu nisso! – expliquei.
- Quero só ver se você vai conseguir fazer algum trabalho estando perto dele! – o Isaac brincou – Vai ficar toda ai, Alê, você brilha mais que os Estados Unidos em tempo de globalização! – ele completou, imitando a minha voz. Gargalhei tão forte que voaram pedaços de comida de uma maneira nada bonita.
- Ai Alê, seu corpo é mais bonito que o cerrado brasileiro!
A cada nova gracinha, era um pedaço de comida que decolava em direção a ele. Depois de poucos minutos, eu já estava ofegante de tanto rir, e tanto o Isaac quanto o chão da cozinha estavam cheios de pedaços de omelete recheada. Quem ficou feliz foi o Rodney, que encheu o bucho enquanto a gente ria. Então resolvemos limpar a cozinha.
- E você, o que tem de novidade? – perguntei, lavando a louça enquanto o Isaac passava um pano molhado no chão pra tirar a gordura.
- Meu pai me deu uma câmera nova!
- Sério? Mas nova pra usar ou nova pra coleção?
- Nova pra coleção.
- Então deve ser uma velharia caindo aos pedaços.
- Você é uma velharia caindo aos pedaços! Mais respeito com as minhas câmeras!
Isaac era apaixonado por fotografia desde criança, paixão que havia herdado do pai – embora hoje em dia ele fosse muito mais ligado nisso do que o Seu Osvaldo. Além das várias câmeras que ele tinha para fotografar, ele colecionava objetos antigos relacionados à fotografia. Seu quarto estava cheio de rolos de filme (alguns que nunca haviam sido usados, alguns em cujo negativo ainda dava pra ver as imagens fotografadas pelos antigos donos), fotos velhas da sua própria família que ele havia restaurado durante um curso de férias, e, principalmente, câmeras. Modelos e mais modelos incrivelmente velhos e caros pela sua raridade. Seu Osvaldo tinha se tornado especialista em identificar câmeras antigas e arrematá-las para o filho, às vezes por uma mixaria daqueles que não sabiam seu real valor, às vezes por quantias tão altas que eu me perguntava se valia mesmo a pena. Mas de todas elas, Isaac e seu Osvaldo cuidavam com tanto amor e zelo que eu sabia que não havia nada no mundo mais valoroso pra eles.
Por isso, quando eu ofendia, mesmo que de brincadeira, a sua preciosa coleção, o Isaac só faltava pular no meu pescoço. Era divertido fazer isso com ele, só pra ver seu instinto de proteção. Eu chamava ele de mamãeàs vezes só pelo prazer de deixá-lo cada vez mais irritado.
- E o que mais? – perguntei, segurando o riso.
- Vou fotografar a Janaína amanhã!
- Eu conheço ela? De onde ela é?
- Do meu colégio.
- Hm. Aqui ou na casa dela?
- Na casa dela.
- Pra aproveitar melhor a luz?
- Isso aí.
Dei uma risadinha, mas não achava tanta graça. Sua paixão também tinha acabado por ajudar Isaac a conseguir garotas. Só do colégio dele eu já tinha perdido as contas de quantas ele havia “fotografado”. Ele nunca me mostrava as ditas fotos depois, e eu nunca pedia pra ver. Aquele tinha se tornado o seu maior charme.
Não que ele não fosse charmoso, nem bonitinho. Mas a meu ver ele não era exatamente o que a maioria das meninas procuraria num cara. O Isaac tinha o cabelo meio comprido, sem corte definido e na altura do ombro. Era alto – mais alto até que eu, que tinha 1,70m – e magricela, e ainda usava aparelho na parte de baixo dos dentes. Tinha aquele ar meio geek, mas apesar de tudo isso seu rosto não era esquisito como era de se esperar. Ele tinha maçãs do rosto finas e o nariz nas proporções corretas, a boca era grande, mas de lábios finos, e, graças a mim, as sobrancelhas que emolduravam seus olhos atentos nunca estavam grossas demais. Quando ele deixava a barba crescer, formando um cavanhaque, ficava até muito bonito. Ele não precisava daquela desculpa idiota de fotografia pra pegar ninguém.
Mesmo assim, ele a usava. E ao contrário de mim, que no auge dos meus dezessete anos nunca tinha namorado ninguém e só havia dado um beijo a vida toda, ele tinha uma história nova a cada duas semanas. Garotas da sua escola, alguém que eu não conhecia do nosso condomínio, uma menina que ele conheceu no aniversário de fulano, a prima bonita de algum amigo. Minha sorte era que o Isaac era extremamente desapegado, senão eu já teria perdido meu melhor amigo pra alguma namorada.
Depois que a cozinha estava mais ou menos no lugar, fomos pro quarto dele. Deitei na cama constantemente desarrumada de Isaac enquanto ele pegava da sua prateleira superior – onde suas câmeras de estimação ficavam expostas sob uma cúpula de vidro feita sob medida para protegê-las do pó, da umidade, do oxigênio, de raios laser alienígenas, mas especialmente de dedos curiosos – a sua mais nova aquisição. Eu era uma das poucas pessoas a quem Isaac permitia a honra de tocá-las; e isso apenas porque ele as segurava enquanto eu as examinava com dedos carinhosos. Um toque um pouco mais brutal e ele me arrancaria o fígado.
A câmera que ele pegou era preta e incrivelmente compacta, em comparação com outras máquinas pesadas e grandes que ele tinha ali. Tinha uma espécie de flash em cima, e o metal ao redor da lente era dourado, parecido com um relógio. Estava bastante gasta e suja, e fedia como se tivesse sido recém-tirada de um túmulo – o que provavelmente era verdade. Mas convivendo com Isaac eu tinha aprendido a ver a beleza nesse tipo de coisa.
Isaac se sentou na beirada da cama, e eu ao seu lado. Suas mãos seguravam a câmera como se ela fosse um bebêe pudesse quebrar. Tive que chegar tão perto pra conseguir ver direito que meu rosto estava praticamente colado no dele.
- É uma UR da Leica. – ele me explicou – Fabricada em 1914, mais ou menos. É linda, né?
- É bonita. – sorri, tocando de leve a sua estrutura – Onde o seu pai conseguiu?
- Mercado Livre! Acredita? E o cara pediu uma miséria. Nem trezentos reais por essa belezinha!
Engoli a informação de que havia muita coisa melhor e mais nova que ele podia comprar com quase trezentos reais. Ele viria pra cima de mim com aquele discurso de “você sabe quanto vale uma peça rara?” que eu simplesmente não estava afim de ouvir pela vigésima sétima vez. Então ignorei.
- Um achado! – eu disse, apenas, e ele concordou.
- Pena que não funciona mais. Tá vendo isso aqui? – ele me apontou o espaço da lente, aquele que parecia um relógio do lado de fora – Quebraram a lente. E eu e o meu pai demos uma olhada e o obturador também já era. Essa vai ficar só na prateleira mesmo.
Ficamos um minuto só olhando pra câmera. Então aquela posição torta na qual Isaac estava me forçando a ficar só por medo de esticar a droga da máquina na minha direção começou a se tornar realmente incômoda, e me deitei de novo.
- Então, qual é a boa de hoje? – perguntei, enquanto Isaac colocava a câmera de volta no seu lugar sagrado..
- Que tal você fazer a sua lição enquanto eu jogo videogame, e depois eu te deixo brincar com a minha Polaroid? – ele sugeriu, já ligando o console do Play Station 3. Bufei, mas a perspectiva de ele me deixar tirar algumas fotos sem nenhum “apuramento técnico”, como ele dizia, e gastando seu precioso filme de Polaroid me deixou mais animada.
- Fechado.
- Mas você vai ter que me deixar tirar uma foto sua.

- Vai sonhando...

4 comentários:

  1. Eu simplesmente amei ♥ No momento estou lendo As Bruxas De Oxford e estou apaixonada pela história. Espero que continue a postar os capitulos. <3

    ResponderExcluir
  2. Adorei .. já quero ler esse livro! Esperando agosto chegar aqui....rsrsrd

    ResponderExcluir
  3. Adorei .. já quero ler esse livro! Esperando agosto chegar aqui....rsrsrd

    ResponderExcluir

 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger