Não vou falar

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Não vou falar sobre como você me afeta. Não vou dizer nada sobre os olhares escondidos e as indiretas perdidas pros outros, mas que nunca me passam despercebido. Não vou me abrir sobre o jeito como segura a minha mão, nem sobre os momentos em que me abraça e esqueço de respirar por um instante. Ou sobre as vezes em que me beija devagar e parece que o mundo inteiro parou só pra nós dois.

Não vou falar sobre a saudade que sinto. Não vou colocar em palavras os pensamentos bregas que tenho às vezes, nem te contar todas as coisas que ainda quero fazer com você. Não vou falar sobre os sonhos que tive, dormindo ou acordada, e também não vou mencionar que fico elétrica quando vejo seu nome no meu celular.

Não vou falar sobre o quanto você me irrita às vezes. Não vou contar que, mesmo quando você me irrita, tenho vontade de te beijar. Não vou falar que às vezes fico horas repassando as nossas conversas, nem que também me divirto ao te irritar.

Não vou falar sobre o quanto estou assustada. Não vou dizer que já estou calejada de experiências ruins, e que tenho medo de me apaixonar por alguém. Não vou falar sobre as horas que desperdiço imaginando mil cenários onde tudo vai dar errado, nem vou citar todos os pensamentos horríveis que já tive.

Não vou falar de você. Também não vou dizer que é você, porque você já sabe. Não vou gritar pros quatro ventos, por mais que queira, porque você é meu segredo, e enquanto meu segredo, está protegido. Se ninguém souber, posso fingir que não é nada sério. Posso me convencer de que, se tudo for mesmo pelos ares, não vou sentir nada. Posso acreditar que, se eu manter meus pés no chão e a cabeça no lugar, não vou realmente me apaixonar por você. É só não dizer.


Leia ouvindo: Catch Me, de Demi Lovato

Larissa Responde #22

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Ensinando e Aprendendo

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Quando comecei a dar aula, em 2009, ser professora era como um "último recurso". Depois de crescer neta de uma professora do Estado, tinha escutado todo tipo de barbaridades sobre como a vida de professor não era fácil e aquela deveria ser a última profissão no meu bloquinho de opções. Mas eu estava sem emprego, sem escola e com uma oportunidade, então resolvi começar.

Dei aula por quase dois anos antes de largar pra continuar a faculdade. Foi só depois que terminei meus estudos que voltei a ensinar. E se tem uma coisa que eu aprendi nesse tempo é que minha mãe e avó estavam certas: não é fácil. Mas isso não quer dizer que não valha a pena.

Talvez seja pelo fato de eu dar aulas de inglês e não ter contato com a realidade mais cruel daqueles que vivem de ensinar em escolas públicas, mas a verdade é que esse meu tempo como professora tem sido mais sobre experiências boas do que ruins. Sim, eu tenho que preparar aulas, e corrigir milhões de coisas, e ligar pra alunos, e me estresso com as coisas do dia a dia. Mas eu também dou muita risada, e faço amizades, e aprendo alguma coisa nova todos os dias.

Porque ser professor é isso - é ensinar, mas é aprender também. É aprender sobre aquele aluno que tem problemas na família e precisa de ajuda. É aprender a como lidar com as dificuldades particulares de cada um. É aprender o jeito certo de ensinar, porque a gente descobre que não existe um único jeito bom de entregar uma aula. É aprender a respeitar e a crescer junto, e principalmente, é aprender a se tornar e a criar seres humanos melhores.

Então, é, ser professora não foi minha primeira opção de carreira. Não sei se é isso que vou fazer pelo resto da vida. Mas de uma maneira ou de outra, é uma profissão que aprendi a amar.

Acho que Cresci

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Não sou mais criança. Cresci, eu acho?

Mas que inferno essa incerteza. Não tem do que duvidar - eu cresci, sou gente grande. Para todos os aspectos práticos e biológicos, já sou dona do meu nariz.

Exceto pelo fato de que não sou. Nem um pouco. Não como deveria. Dos meus romances juvenis na cabeceira, às paredes azul bebê e ao caderno com tema de princesa em minha mão, eu me agarro à infância - ou ao que restou dela. Se meu corpo nega, minha mente não desapega. É difícil demais. Imprevisível demais. Não sei se estou pronta pra isso.

Mas se não estiver agora, quando estarei? Preciso aceitar que crescimento não é algo que vem em doses homeopáticas, como a gente acredita quando é criança e tem todo o tempo do mundo a perder. Um dia você para, olha em volta, e BUM, cresceu. Ninguém te avisou, ningupem te preparou pra isso. Só vieram e puxaram seu tapete.

Quando eu era criança, achava que todos os adultos sabiam de tudo. Acho que é por isso que crescer me apavora; cá estou, nos meus vinte-e-tantos anos e eu sinto, honestamente, que não sei de nada. Estou perdida, sem respostas, sem rumo. E o relógio rodando. Os dias passando. E as pessoas esperando que eu saiba.

Mas não sei. NÃO SEI. Aceitem, entendam. Me empurrem aos poucos, que é pra eu me acostumar. Me contem sobre essa montanha-russa que é pra eu já me preparar pras descidas. E nunca, jamais, esperem de mim as respostas. Eu não as tenho, nem sei se um dia terei. Sejam pacientes. Acho - não, eu sei - que um dia eu cresço.

Maquiagem

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Cheguei em casa e tirei a maquiagem - de fora e de dentro. Tirei o sorriso que usei pra trabalhar. Tirei o cabelo perfeito, a atitude confiante, tirei a camisa de força que guarda minhas loucuras e a grossa camada de convenções sociais que vesti o dia todo. Me limpei, e enquanto me limpava, me vi no espelho e percebi que aquela pessoa ali - aquela mesma, que estava me olhando - às vezes esquecia de ser quem ela realmente era.

Quero ser eu mesma, mas quero ser quem os outros esperam que eu seja. Quero me rebelar, mas quero entrar nos padrões. Quero ser única, mas é solitário demais não ser igual a ninguém. Quero que me vejam, mas às vezes, dói demais ser vista.

Todos os dias, tento pensar na vida como um livro. Escrevo um capítulo diário e, na maior parte do tempo, sei o que esperar dele, mesmo que o desfecho ainda esteja longe e a narrativa seja um tanto previsível. Talvez seja esse o problema. Talvez, por passar tanto tempo criando personagens, eu tenha criado a mim mesma; essa pessoa que eu quero ser, e que finjo ser, e acredito ser, mas que todos os dias, quando chega, se despe de si como quem despe uma roupa e não se reconhece mais.

É difícil viver sem filtros, sem aparências. É difícil não maquiar a realidade, para si e para os outros. Quanto mais penso, mas percebo o quanto é impossível tentar viver na verdade. Porque ninguém quer que você seja verdadeiro; as pessoas esperam uma verdade que lhes seja conveniente, que as agrade. Quando você se mostra de verdade - com as suas falhas e suas dores, com suas imperfeições e seus segredos escancarados - você choca o mundo. Mas novidade: somos todos humanos. Todos temos defeitos. Todos precisamos ser vistos de vez em quanto, pelo que somos, mais do que por aquilo que parecemos ser.

Então saio na rua maquiada. Visto minha camisa de força e retomo a atitude, porque, pra ser honesta, às vezes são o que me mantém durante o dia. Mas quando posso, me desmonto. É bom de vez em quando relembrar quem eu sou de verdade.

Larissa Responde #21

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Vamos falar sobre a Bienal

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Então dia 3 de Setembro começa mais uma Bienal do Livro do Rio de Janeiro. É talvez a décima Bienal que eu vou na vida, terceira que vou na Cidade Maravilhosa. É também a primeira Bienal em cinco anos onde não irei participar como autora.

Foi um conjunto de fatores. Com a edição do Bruxas esgotada e os livros independentes fora do mercado físico, mais a publicação de Amor Plus Size saindo só no ano que vem, não vi propósito em investir num espaço em um estande sem ter nada pra expor. Esse ano trouxe inúmeras mudanças na minha vida, e todas foram tão positivas que não vi motivo em me desgastar pra correr atrás da Bienal como autora se posso aproveitar um período de ~férias~ como tem sido esse pequeno hiato de 2015, no qual quase não participei de eventos literários em geral. Não por falta de vontade, mas por falta de novidade - por enquanto, estou mantendo o low profile.

Dito isso, não quer dizer que eu não vá pra Bienal - muito pelo contrário, vocês vão ter que me engolir, porque vou estar lá sim. Mas só pra passear dessa vez.

Dias 6 e 7 de Setembro, vocês podem me encontrar pelos corredores calmamente visitando amigos como as várias autoras amadas que estarão no estante da Ler Editorial, da Planeta, da Novo Conceito, e assim por diante. Também vou levar marcadores de texto porque ninguém é de ferro, e se de repente você tiver algum livro meu que queira autografar, ou simplesmente pegar uma assinatura fofa no marcador, estou à disposição. Além disso, ainda existem exemplares de O Coração da Magia disponíveis, então, se você quiser garantir o seu, entre em contato comigo por alguma rede social e deixe reservado.

Todos os anos, eu deixo aqui minha programação, mas tendo um tempo tão limitado na feira esse ano, resolvi fazer isso diferente também. Então nada de lugares específicos, horas de fila, de me programar pra sofrer. Vamos ver o que eu encontro pelo caminho, o que consigo aproveitar, e quem me achar por lá, já sabe - dê aquele grito, chame que eu atendo. Como sempre, estou louca pra ver vocês :)

Até lá!

#MLI2015 - Quarta semana

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Felipe Neto e a Idealização da Obesidade

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Procurando onde pedi sua opinião, Felipe
Eu geralmente não me envolvo em polêmicas. Eu quase nunca uso o que os outros disseram pra comentar a respeito de alguma coisa. Mas hoje eu vou abrir uma exceção, porque realmente a coisa pegou pro pessoal aqui.

Estava eu navegando nesses mares cibernéticos, quando me deparei com essa matéria do blog Lugar de Mulher, que por sua vez, citava um desabafo do Youtuber Felipe Neto sobre pessoas que o acusavam de ser gordofóbico. Não vou me dar o trabalho de ficar copiando e colando partes do discurso dele aqui, mas em suma, ele afirmou que não é gordofobia se preocupar com a saúde das pessoas, e que ele se preocupa com essa idealização do gordo, de tratar o obeso como algo "normal".

Uau, migo, valeu por essa. Eu realmente não sei como vivi todos esses anos sem a sua preocupação. Significa muito pra mim.

Depois de ler tudo o que ele escreveu, fiquei me perguntando o que exatamente ele entende como idealização. Resolvi pedir a ajuda do colega Dicionário, e ele me contou que significa  1 Ato ou efeito de idealizar. 2 Sociol Criação imaginária de normas de ação, no desenvolvimento cultural, tidas como perfeitas e apresentadas como objetivo a ser alcançado na realidade. Então, se nós mostramos respeito a uma pessoa com sobrepeso, nós estamos claramente desejando ser como elas. Claro. Afinal, não é isso que fazemos há décadas com as pessoas magras?

Vamos mais fundo nesse jogo. Pense em todas as pessoas a quem você já demonstrou respeito e consideração na vida (com sorte, será uma lista longa). Pense nos seus amigos e familiares e conhecidos de qualquer credo, raça ou sexualidade que você trata pelo que são, isto é, pessoas. Pense em todos eles e agora se pergunte: só porque você demonstrou respeito, significa que você quer ser como eles?

Acho que a resposta é não.

Felipe Neto que me desculpe, mas se hoje gordos e gordas de todas as partes do mundo lutam por alguma coisa, é apenas por isso: respeito. Como tantas outras pessoas, saímos em defesa simples pelo nosso direito de sermos tratados com nem mais nem menos que ninguém. Não quero que o mundo seja gordo. Você pode achar que não, mas eu sei que obesidade é uma doença. Eu sei que é perigoso. Eu sei que tem N outras doenças que vem junto. Mas sabe do que eu também sei? Eu sei qual o estado da MINHA saúde. Eu e apenas eu sou responsável por ela. Ninguém aqui é fiscal do peso, agente de saúde ou médico pessoal de ninguém.

Você não chega pra uma pessoa magra pensando em todos os problemas de saúde que ela pode ter e recomenda que ela faça isso ou aquilo. Você não age de maneira condescendente nem superior com aquele seu amigo magricela que come por três. Você não julga uma pessoa que tenha péssimos hábitos se ela estiver aparentemente dentro do IMC ideal. Sabe por que? Porque você não está nem aí pra saúde delas. Você está preocupado com o que acha que sabe quando olha pra alguém.

Então, por favor, pare de usar saúde como argumento. Você não sabe nada sobre a minha vida, nem sobre a de ninguém que não a sua. Não preciso estar magra pra ser saudável, assim como ninguém no peso que for, deve se descuidar da própria saúde. Não quero engordar o mundo. Não quero que todo mundo seja igual a mim. Quero apenas que ser eu mesma seja permitido, que me amar, do tamanho que for, não seja um crime. Quero que a idealização, já que você quer chamar assim, seja todo mundo idealizando a merda que quiser pra própria vida, sem julgar o do coleguinha. E quero que você e todos os outros gordofóbicos do planeta parem de achar que tem direito a opinião sobre qualquer parte da minha vida.

Larissa Responde #20

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Ser ou não ser: escritor

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Então eu sempre gostei de escrever. Quando era pequena, lá com os meus seis anos, e comecei a escrever minhas primeiras palavras, a primeira coisa que quis fazer foi contar histórias. Tenho cadernos de contos de quando tinha 7 anos. É uma coisa tão intrínseca à mim que não sei separar exatamente um momento da minha vida em que eu não estivesse escrevendo.

Mesmo assim, levei anos da minha vida pra ter coragem de dizer as palavras eu sou escritora sem sentir vergonha. Vocês sabem como é. As pessoas olham pra você como se você fosse um ET. Quem se auto-intitula escritor, afinal de contas? Não é esse um título que a gente recebe depois de reconhecido, depois de publicar um livro, depois de, como um médico, ter certa formação no assunto?

NÃO.

Não existe uma faculdade que te forme escritor. Ninguém um dia dá um diploma pra você e te diz "agora você está apto a escrever livros". A gente se forma nisso na raça, todos os dias. Os livros que lemos não são necessariamente didáticos, mas nos ensinam muito. Todos os dias, estamos produzindo algo - novo ou não, não faz diferença. Praticamos até nos sentir exaustos. Temos vergonha do que fazemos às vezes, sim, mas também temos orgulho. Não é uma coisa que um dia ninguém é, e depois vira, magicamente. Não é um título. Às vezes me pergunto se sequer é uma profissão.

É uma escolha de vida.

Escrever significa doar-se. Significa abdicar de coisas que você gostaria de fazer com o seu dia pra terminar aquele capítulo, sacrificar horas de sono pra adiantar uma revisão. Significa aceitar não ser pago pelo prazer de ter seu trabalho (re)conhecido, significa às vezes conciliar vidas paralelas pra se dedicar a uma profissão que não te dá nenhum sustento além do espiritual. Escrever significa que às vezes o seu humor vai lá pra baixo porque seu personagem não está bem, ou que você vai ficar uma semana de luto pela morte de alguém que nunca existiu. Significa sonhar acordada e falar sozinha e encarar o mundo de uma forma ao mesmo tempo poética e mecânica, destrinchando as coisas e se perguntando como elas funcionam. Significa tanta coisa mais que um monte de papel publicado.

Então, se você aí que está lendo esse texto agora se identifica com uma, duas, ou todas as coisas que disse nesse texto, saiba: você é escritor. Não importa quanto tempo leve pras suas obras virem ao mundo, ou se elas sequer nascerão um dia; você já é escritor. E ninguém pode tomar esse mérito de você.

Dona Moça - Segunda Temporada

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Há algum tempo atrás, contei pra vocês sobre o meu novo projeto audiovisual, a websérie Dona Moça. Inspirada em Senhora, de José de Alencar, Dona Moça está no ar desde Maio e a primeira temporada está quase chegando ao final.

Produzir tantos episódios, por mais curtos que sejam, não sai barato. Existem custos de alimentação, elenco, equipe, figurino e cenário envolvidos. Para essa primeira parte da série, tudo foi realizado com recursos próprios; todas investimos num projeto em que acreditamos, e contamos com a colaboração de amigos e familiares, bem como a de todos os profissionais que fizeram parte desta série e que não receberam nada pelo seu trabalho. Mas se quisermos continuar contando essa história, precisamos de ajuda.



Planejamos uma segunda temporada com mais vinte e cinco episódios, e uma série paralela que nos dará o ponto de vista de outros personagens. Para que todos esses mais de trinta vídeos possam ser realizados, começamos ontem uma campanha de financiamento coletivo através do Kickante, uma plataforma 100% confiável de crowdfunding, onde vocês podem nos ajudar com contribuições a partir de dez reais para nos ajudar a fazer desse sonho realidade. Todas as contribuições equivalem a prêmios físicos, como marcadores de texto, postais, links antecipados dos próximos episódios, e até mesmo DVDs da primeira temporada e uma edição linda e exclusiva de Senhora que estamos planejando.

Toda ajuda é bem vinda, seja na forma de dinheiro ou mesmo nos ajudando a divulgar. Se você ainda não conhece Dona Moça, clique aqui para entender melhor a proposta, e aqui para ver os episódios. Para contribuir, acesse nossa página no Kickante.
Contamos com a ajuda de vocês!

Idas e Vindas

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Quando eu tinha dezesseis anos, embarquei num avião no Aeroporto Internacional de Guarulhos rumo ao que seria o melhor ano da minha vida. Seis meses antes, eu tinha enfiado na cabeça que queria fazer um intercâmbio, e depois de conseguir convencer toda a família, estava me mandando pra lá. Lembro como se fosse hoje de estar tensa no aeroporto - não por medo da viagem, mas por estar morrendo de vontade de ir logo. Naquele dia, minha mãe me falou uma coisa pra qual eu ainda não tinha resposta: "vê se tenta voltar".

Seja pelo destino, pela vida ou simplesmente pelas minhas escolhas, resolvi voltar. Desde o momento em que cheguei de novo ao Brasil, seis meses depois de ir embora, eu já era uma pessoa diferente; eu tinha hábitos que não podia justificar, sentimentos que ninguém conhecia, um jeito de falar que parecia ser de outra pessoa. Todo mundo muda, mas sabe quando você se olha no espelho e não reconhece mais aquela pessoa, naquele lugar que um dia chamou de seu? Era mais ou menos isso. Eu estava incomodada. Estava errada. Queria voltar.

Não fui, e a vida aconteceu. Me arrependi de ter voltado, mas jamais me arrependeria de tudo pelo que passei desde este retorno. Aprendi tanto, fiz tantos amigos, vivi tanta coisa - e estou aqui. Aqui, nesse blog, nessa carreira, vivendo um sonho. E mesmo assim, aquele comichãozinho sempre existe. Aquilo que me diz que talvez eu devesse estar em outro lugar.

De tempos em tempos, me bate aquele desespero. A vontade de partir me sufoca, e eu penso que, se passar mais um ano nessa casa, nessa cidade, nesse país, vou enlouquecer. Faço planos, pesquiso, faço contas, sonho alto. E aí a realidade chega, e de repente a vontade passa, e penso que talvez tenha construído coisas demais aqui pra simplesmente ir embora. E aí essa urgência vai embora, só pra depois, de repente, com jeitinho, aparecer de novo.

Não sei se isso acontece com vocês, mas neste momento estou vivendo uma fase em que todos os meus amigos estão indo embora, de um jeito ou de outro. Alguns se afastam pela vida, pelos namoros e trabalhos e cursos e rotinas que os deixam ocupados demais pra conseguirmos nos ver o tempo todo. Outros estão literalmente partindo, buscando novos horizontes, e eu me orgulho de cada um deles. Mas de certa forma, isso acaba redespertando aquele meu instinto: será que não é hora de ir? O que é que eu ainda estou fazendo aqui mesmo?

E a verdade é que: não sei. Não sei o que estou fazendo aqui. Não tem nada que me prenda, não exatamente - gosto do meu emprego, e da minha carreira com a escrita, amo minha família e meus amigos, mas nada disso é exatamente razão pra ficar; nunca foi. Não é uma questão de abandonar o que tenho, mas de ser capaz de viver com a distância, como pude antes, como sei que posso. Mas aí vem a dúvida: quero fazer isso porque acho que devo, porque é o melhor pra mim, ou porque me sinto compelida pelos motivos dos outros? É o que quero pra agora ou o que quero a longo prazo? E por que, afinal, estou pensando tanto? Por que não pode ser só escolher - e ir?

Queria que fosse. Talvez eu esteja ficando velha, e não seja hoje tão capaz de só abrir as asas e voar quanto era antigamente. Não sei se escolho direita o esquerda, pra baixo ou pra cima, ir ou ficar. Por enquanto, fico. Vou esperando que o destino, a vida ou simplesmente as minhas escolhas me apontem qual é o meu lugar.

Entrevista no Eu Leio Brasil

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Hoje participei da 43ª edição do Eu Leio Brasil, num hangout super maneiro com a autora Janaina Rico! Se você perdeu, não tem problema: tá no Youtube pra todo mundo ver! Clique abaixo pra assistir :)

Pra você que sofre

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Essa é pra você que sofre: vai passar.

E eu sei, eu sei. Quem sou eu pra falar da sua dor? Não sei nada sobre a sua vida, não conheço sua situação, não sou você. Como poderia saber?

Mas estou dizendo: vai passar.

Não sei no que você acredita. Talvez creia em Deus, no destino, no universo, ou talvez acredite só em você mesmo. Talvez agora não acredite em nada. Mas lembre-se, e lembre-se sempre, de que não recebemos fardo maior do que somos capazes de carregar. Se parece demais, se parece infinito, se parece sobrecarregar você - aguente. Respire. Suporte. Vai passar.

Tudo nessa vida é aprendizado. E sei que agora pode ser o pior momento pra propor uma coisa dessas, mas tente encontrar um lado bom. Um descanso merecido, uma independência conquistada, uma nova chance pra ser feliz; a vida é oportunidades. Faça a sua valer. Sorria para o que recebeu, mesmo que doa.

Pra você que sofre: não sei qual o seu problema. Gostaria de saber. Gostaria de ajudar. Mas daqui, de longe, tudo o que posso te dizer é que uma hora passa. Talvez daqui a alguns dias, semanas, meses. Talvez seja pra sempre um incômodo que você carrega no seu coração. Mas ele diminui, e você reaprende a viver, e uma hora, quando se der conta, a vida é outra e aquilo tudo ficou pra trás. Aguente só mais um dia de cada vez. Vai passar.

Conhecendo os lugares da imaginação

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Ao longo da minha vida, escrevi uma dezena de livros e contos. Publiquei seis. Destes, pelo menos metade não se passa em São Paulo, minha terra natal. Dessa metade, eu não conhecia nenhuma - pelo menos até agora.

Sabe aquela máxima de "escreva sobre o que você conhece"? Bom, eu sempre achei isso uma besteira um tanto grande, porque o que eu conheço é muito limitado. Mesmo uma cidade grande como São Paulo pode limitar as opções de uma garota, certo? Então um belo dia, lá em 2008, quando comecei a escrever Toda Garota Quer, resolvi sair um pouco da minha zona de conforto e levar minhas personagens pra longe, lá pra Ilhabela.

Eu tinha alguma experiência com o litoral paulistano. Já tinha ido pra Santos, Praia Grande, Itanhaém, Peruíbe, Ubatuba. Quero dizer, quão diferente uma cidade litorânea pode ser, certo? Então escrevi me inspirando nos lugares por onde tinha passado, ciente de que um lugar não era o outro, mas abraçando a possibilidade porque, afinal, o importante era escrever. Lembro que mais tarde, quando as minhas leitoras vinham me falar sobre sua experiência com a leitura, todo mundo ficava chocado quando eu dizia que nunca tinha ido pra lá pessoalmente. Parecia real demais aos olhos da Dora, minha personagem. Como poderia, sem ter sido real pra mim?

Assim como acontece com todo cenário fictício que eu leio ou escrevo, Ilhabela tem estado na minha lista de lugares para conhecer desde que terminei o livro. Mas não foi até hoje que o sonho se concretizou - e finalmente!

Não vou ficar aqui falando sobre como foi o passeio porque a) ninguém realmente quer saber, e b) não fiz nada de sobrenaturalmente interessante considerando que só fiquei na ilha umas cinco horas. Pra começar, sim, é uma ilha, e não só no nome. Tem que pegar balsa e tudo; um detalhe básico de pesquisa do qual passei por cima, se vocês leram o livro. Mas essa não é a única surpresa da cidade.

Ilhabela se provou uma cidade muito mais bonita do que eu esperava. As praias são pequenas, mas tem água cristalina. A cidade mistura casarões modernos com construções antigas, e é bem cuidada e tranquila. É o tipo de lugar onde eu realmente consigo ver uma história como a da Dora se desenrolando, e não só pela paisagem. Talvez fosse porque eu estava procurando, mas eu realmente senti a aura que esperava por ali. Como se uma estranha de cabelos ruivos fosse passar por mim a qualquer minuto, acompanhada de um belo rapaz de olhos verdes.

Esperava achar os cenários ideais - a praia onde eles assistiram o nascer do sol, a pousada de Tomáz, a feirinha onde eles passearam durante a noite - mas a verdade é que, depois de uma hora, eu desisti de procurar. Acho que a beleza de a gente escrever uma história num determinado ambiente é que ela pode se passar em qualquer lugar, e isso está além de mim. Só de ter estado lá, fui jogada uns bons sete anos no tempo. Revivi a história, me apaixonei outra vez, e redescobri o que toda garota quer.

Larissa Responde #19

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Conheça "Dona Moça"

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Há tempos venho falando no Twitter sobre meu novo projeto. Dona Moça é uma websérie que desenvolvi em parceria com quatro amigas - Anna Lívia, Jacqueline, Maria Raquel e Maynnara - e que chegou finalmente ao Youtube hoje! A série é uma adaptaçao do clássico Senhora, de José de Alencar.

Veja o primeiro episódio:


Saiba mais sobre a série acessando a Adorbs Produções.

O dia

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É aquele dia. Aquele dia que ela jura que, ano que vem, vai esquecer. Aquele dia que ela tenta sempre não lembrar. É aquele dia que, não importa o que ela faça, não sai da cabeça.

Ela faz as coisas exatamente iguais naquele dia. Acorda. Pensa. Come. Pensa. Trabalha. Pensa. Dorme. Pensa.

Nele.

Onde estará? Estará feliz? Realizado? Amado? Todas as coisas que queria, as tem? Todos os sonhos, realizou? Quem será essa pessoa, esse estranho tão familiar, que se encontrou e se perdeu de sua vida? Os pensamentos não param, e ela se pergunta se é assim pra ele também.

Já faz o que agora - cinco anos? Cinco. Eram pra ser nove. Tudo bem. Faz tempo que ela parou de contar. Não adianta. Os cinco logo serão dez, e um dia vinte, e os quatro ficaram pra trás. Congelados no tempo.

Não tem problema lembrar, ela diz pra si mesma. Por que ela iria querer esquecer? Foi feliz. Tem memórias boas. Aprendeu. Passou - não o amor. Nunca o amor. Mas a dor, e a mágoa, e o desejo de poder voltar atrás. A vida seguiu. E hoje, aquele dia 26 é só um dia no calendário em que ela celebra o momento em que a sua vida começou a mudar.

Coisas que todo autor precisa PARAR de fazer

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descaradamente roubado do blog
sejemenas.blogspot.com
Sabe quando você vê várias pessoas tendo um determinado comportamento relativamente ruim em comum, e se pergunta por que ninguém nunca disse "para, migo, tá feio"? Pois é, sou assim com relação a outros autores. Gosto de acompanhar o trabalho dos meus colegas, de ajudar como posso - e exatamente por isso, quando vejo alguém fazendo alguma coisa que tem CILADA escrito com letras neón e garrafais por cima, às vezes não consigo me conter.

Então essa é pra todos os autores, que de vez em quando precisam de um toque. Afinal, também somos gente.

1) PARE de fazer propaganda por inbox; esse é provavelmente o "método de divulgação" mais inconveniente já inventado, e eu realmente me pergunto o que a pessoa que o criou tinha na cabeça. Pra mim, receber propaganda do livro de alguém por inbox é tão invasivo quanto um e-mail de spam - eu não pedi, eu não quero, e eu não faço a menor ideia do que a pessoa espera conseguir atingindo. Confie em mim, existem pelo menos umas mil outras formas de se divulgar sem precisar encher o saco de todo mundo no cantinho privado das mensagens de Facebook.

2) PARE de marcar todo mundo em todas as postagens; eu não consigo decidir se isso é pior do que mandar mensagem privada com spam, mas garanto que é igualmente chato. Quando você marca 0998686685 pessoas em todos os seus posts de propaganda, as pessoas a) vão te taxar de mala sem alça, b) vão te dar uma curtida solidária, que é pior que curtida nenhuma, c) não vão ler seu conteúdo e dificilmente vão passar aquilo pra frente. Pior ainda, podem bloquear sua existência do Facebook delas, porque sinceramente, ninguém é obrigado. Não é bacana, não é eficaz, então não faça.

3) PARE de se achar a última bolacha do pacote; e eu digo isso inclusive à mim mesma, porque somos todos bichos egocêntricos, e tendemos a achar que somos os detentores de toda a sabedoria, toda a arte, e muitas vezes, de todo o sofrimento. Achamos que somos injustiçados, que não recebemos uma chance, que a vida é um lugar injusto e o mercado editorial não nos dá valor. Bom, adivinha só? Não é só com você. Tem muita gente pastando bem aí, do seu lado, e uma coisa positiva que você pode fazer, em vez de só reclamar, é ajudar o colega. Um ajuda o outro, que ajuda o próximo, que ajuda o um, e isso ajuda todo mundo de alguma forma. Saia de si mesmo. Olhe em volta.

4) PARE de criar barraco na internet; e isso vale pra tudo, ok? Vale pra propagar confusão com quem você não se dá bem, vale pra falar mal de outros autores nacionais, vale pra responder comentários maldosos, e principalmente, vale pra tentar criar caso com quem não gosta do seu livro. Quero dizer, não, gente, apenas não. Isso não é legal, queima filme com todo mundo, e fale o que falar, ninguém nunca esquece de um barraco. Mesmo que signifique engolir alguns sapos, seja simpático ou, no mínimo, saiba quando ficar de boca fechada. Sua autoimagem se preserva e todo mundo agradece.

5) PARE de achar que ser escritor significa publicar um livro; e talvez isso seja uma opinião pessoal, mas eu acredito que ser autor é mais do que estar numa editora top do mercado, ou mesmo ter um livro físico em mãos. Conheço muito autor que se fez na internet, muita gente que precisou de anos dando a cara a tapa virtualmente pra sequer ter coragem de investir seu tempo numa publicação. Achar que a finalidade de escrever é publicar pra mim é tão vazio quanto comprar um monte de coisas que a gente não precisa. Publicação é um processo natural que vem com tempo e esforço, e não é uma coisa que deveria interferir enquanto você está escrevendo. Permita-se escrever e só. O que vier depois vem depois. Fim de papo.

Leia também:
Alegrando-se pelo próximo
Manual de bons modos para autores e blogueiros

23 Reflexões Quando Faço 23

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Então é dia 7 de maio, a.k.a. meu aniversário. Parabéns para mim. Yay!

Todo ano faço um post falando sobre essa data, porque acho que é meu jeito de fazê-la não passar em branco. E esse ano não seria diferente. Mas pra deixar isso mais legal, resolvi fazer uma lista. uma lista de 23 coisas que aprendi nos meus 23 anos de vida. Você pode ficar com preguiça de ler, e tudo bem. Talvez seja mais pessoal do que qualquer outra coisa. Mas ficará aqui, e você pode me dizer com o que se identifica se quiser. Lá vamos nós.

1. Nunca gostei de celebrar aniversários. Sempre que fazia festa, queria me retirar da festa tão logo ela começava. Mas nos últimos anos, percebi o quanto essa data deve ser comemorada. Não é pela festa, nem pelos presentes, mas pela vida. Conforme a gente vai perdendo as pessoas, se liga do quão importante esse novo ano é. Não sei se vou chegar ao próximo aniversário; por que não viver este?

2. Ser adulto não é uma transformação que acontece da noite pro dia. Quando eu era mais nova, achava que um dia saberia tudo, porque seria adulta e adultos tem todas as respostas. Mas aí cresci e vi que, na verdade, ser adulto significa ter mais perguntas. É uma descoberta eterna e a gente nunca para de aprender. É uma formação que se dá aos poucos, quase como uma faculdade. Só que sem aulas. E sem diploma.

3. Falando em diploma, ele realmente não define a sua vida. Na verdade consigo pensar em pelo menos 5 coisas completamente aleatórias que podem me ajudar mais do que uma formação profissional. Conheço no mínimo 20 pessoas que fizeram faculdade e hoje seguem caminhos totalmente diferentes do que planejavam. Antes eu achava faculdade uma obrigação. Hoje em dia, acredito ser opcional.

4. Mesmo assim, a gente precisa continuar estudando pra sempre. Me formei no colégio rezando pra não ter mais que ver cálculos, na faculdade, rezando pra me livrar das aulas de fotografia, e cá estou, trabalhando e.... estudando. A gente percebe que renovação é um mal necessário e que, na verdade, quando estudamos uma coisa bacana, é muito legal aprender.

5. Nada, nada, nada me faz dar mais valor ao aprendizado do que ser professora. Depois que comecei a dar aula, percebi o quanto a) aprender é importante, e b) aprender e ensinar são tarefas difíceis. A gente tende a acreditar que um professor que entrega uma aula ruim é simplesmente um mau professor, quando tem tanto mais além disso. Se pudesse voltar no tempo, acho que daria um abraço em todos que me ensinaram, porque agora sei o quanto é sacrificante.

Larissa Responde #18

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TAG 7 Coisas

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Raramente faço TAGS escritas, mas essa a Bea França me marcou, lá no blog De Adolescente Para Adolescente, e aí não resisti! A TAG consiste em contar sete fatos sobre você para responder alguns tópicos aleatórios. Então vamos lá!

7 coisas para fazer antes de morrer:

1. Conhecer um país de cada continente
2. Aparecer na lista de mais vendidos
3. Ir a algum festival de música
4. Ver uma peça na Broadway
5. Ler mil livros
6. Ter uma casa pra chamar de minha
7. Ficar grávida

7 coisas que eu mais falo:

1. Good afternoon, everyone
2. Good night, everyone
3. Homework! Let's go to page....
4. Não estou te julgando, mas...
5. Seje menas
6. Não sou obrigada
7. Noooossa....

7 coisas que eu faço bem:

1. Escrever
2. Bolos
3. Ler
4. Lip-sync das minhas músicas preferidas
5. Dançar como se ninguém estivesse olhando
6. Organização de coisas em geral
7. Ficar quieta nas horas certas

7 coisas que me encantam:

1. Pôr-do-sol
2. Céu estrelado
3. Estranhos no metrô
4. Capas bonitas de livros
5. Doces vistosos
6. Sapatos de salto-alto
7. Eletrônicos em geral

7 coisas que eu odeio:

1. Sonhar com situações irritantes e acordar irritada
2. Gente conhecida que me encontra e finge que não me conhece
3. Desrespeito ao próximo
4. 3g!!!!!!!!!!
5. Trabalhar de sábado D:
6. Me perder
7. Falar ao telefone

7 pessoas para responderem essa TAG:

1. Anna Lívia
2. Raquel Roriz
3. Mariana Marins
4. Maria Salles
5. Maria Raquel
6. Clara Savelli
7. Você que está lendo :)

Histórias que nunca escrevi

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Minha avó era uma pessoa incrível. Não sou a única que sabia disso, mas é incrível como a gente deixa certos detalhes passarem de vez em quando, achando que os teremos pra sempre.

Ela adorava contar histórias. Perdi as contas de quantas vezes ouvi as várias anedotas sobre seus tempos de menina, de quantas vezes implorei pra que ela me contasse como era a vida no início do século vinte. Eu amava passar a noite na casa dela pelo simples prazer de ouvi-la contar histórias sobre sua vida antes de eu dormir. É um prazer da minha infância ao qual sempre dei muito valor, mas que nunca compartilhei com ninguém. Eram segredos nossos, essas histórias, dignos somente dos netos sortudos que estivessem por perto pra ouvir.

Minha avó era a minha melhor leitora. Ela foi nos meus lançamentos e comprou todos os meus livros, e leu todos eles mesmo não gostando do gênero fantasia. Se eu perguntasse o que ela tinha achado, ela diria sempre "é tão bom quanto aquele outro", e isso bastava pra mim. Minha avó nunca questionou minhas escolhas, nunca perguntou se eu queria fazer outra coisa da vida. Ela era a única que não achava estranho a neta pedir livros em todas as datas comemorativas, e que ria quando eu falava sobre algum livro que eu estava lendo.

Ela amava cozinhar, e amava ainda mais fazer os doces preferidos dos seus mais de dez netos. Italiana e cozinheira de mão cheia, é difícil pensar numa pessoa que a tenha conhecido e não tenha se rendido aos prazeres dos seus bolos, pudins e massas. Sinto falta de vê-la cozinhando, de perguntar a receita do bolo sagrado de chocolate e receber como resposta "ponho isso e aquilo". Já tentei reproduzir a receita, mas sei que nunca vou conseguir. O ingrediente secreto era ela. Eu sonhava em levar meus filhos pra um dia provarem dos doces da vovó Tonha, mas nunca vai acontecer. Essa doce memória morreu com a minha geração.

Minha avó era uma pessoa extremamente aberta ao mundo. Nunca vou me esquecer do dia em que, com seus 80 e poucos anos, eu contava a ela a história de um amigo que sofreu bullying por ser gay e ela me soltou a pérola "mas por quê? Ele não está fazendo nada de errado". É impressionante o quanto uma senhora pode ensinar ao mundo em termos de aceitação, e depois de viver diversas decepções familiares sobre o assunto, descobrir que ela, e justo ela, era tão aberta e compreensiva, renovou minhas esperanças no mundo. Pra ela, amor era amor, e ninguém devia ser punido por amar.

Ela nunca reclamava da vida. Juro, nunca mesmo. Minha avó foi professora, servidora pública por mais de vinte anos. Passou fome, vivia com uma aposentadoria de merreca, estava doente há quase duas décadas. Mesmo assim, não me lembro de ter ouvido ela falar sequer uma vez algo de ruim sobre a própria vida ou sobre as pessoas que a cercavam. Ela era dotada de uma luz fabulosa e de um espírito bom demais pra ceder às tentações da língua. Sabe o tipo de pessoa que te vê gorda e pergunta se você emagreceu? Essa era ela. E não fazia pra agradar ninguém. Simplesmente era parte da sua natureza.

Minha avó foi uma mulher incrível, que viveu intensamente cada um dos seus quase 84 anos de vida, e que me ensinou milhares de lições que levarei comigo pra sempre. Não consigo pensar num dia importante da minha vida em que ela não tenha estado presente, e é difícil ter que imaginar minha vida daqui por diante sem ela. Ela nunca vai me ver casar, nunca vai segurar seus bisnetos no colo, nunca mais vai poder segurar minha mão enquanto a gente assiste a novela das seis. Mas essas lembranças, essa vida que ela construiu em torno de todos nós, elas permanecem, e isso será nosso pra sempre.

Pode ir, Tunica. Me espere do outro lado. Um dia a gente se encontra mais uma vez.

Larissa Responde #17

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Amigos (virtuais)

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Galera da NRA - amizade virtual desde 2008
"Mas onde você conheceu essa menina?"
"Internet."

Venho de uma geração em que dizer isso para os pais era a mesma coisa que assinar o atestado de "estou falando com um pedófilo de 50 anos virtualmente". Quando comecei a me meter nessas terras virtuais, lá pelos meus 12 ou 13 anos, ter amigos pela internet era sinônimo de se meter em roubada; milhares de pessoas usavam o artifício da internet para atrair criancinhas desavisadas, e os pais entravam em desespero.

Dez anos se passaram, e embora eu saiba que os perigos da internet não mudaram (se não para a pior), posso dizer seguramente que tem muita gente bacana na internet sim. Talvez tenha sido só sorte minha, mas nunca cruzei com ninguém que quisesse me fazer mal. Pelo contrário, me deparei com dezenas de pessoas que me desejaram e me fizeram muito bem. E foi aí que me tornei uma grande defensora dos amigos virtuais.

Andressa - amizade virtual desde 2009
Sabe, amigo virtual é uma coisa engraçada. É um fulano que você nunca viu, que, até onde você sabe, pode estar mentindo pra você, mas em quem você confia. É uma pessoa que provavelmente tem uma vida própria e um monte de amigos reais, mas escolhe compartilhar seus segredos, alegrias e tristezas com uma pessoa que não pode abraçá-la, confortá-la ou estar fisicamente lá por ela. É um tipo de laço estranho que se forma entre duas pessoas que, sob todas as circunstâncias ditas "normais" não deveriam ser amigas - diacho, elas nem deveriam se conhecer. Mas o que Deus separa, a internet une,
e cá estamos nós. Amigos. Virtuais ou não, não interessa.

Já tive o prazer de fazer amizade com muita gente pela internet, e até hoje cultivo o sonho de conhecer boa parte deles pessoalmente. Muitos eu já conheci, e outros ainda um dia poderei encontrar, mas cada um deles tem sua importância pra mim. Não é porque não os vejo todos os dias que eles importam menos. Não é porque moramos em estados ou países diferentes que a amizade é menor. Como qualquer relacionamento a longa distância, a saudade alimenta o coração, e às vezes apenas saber que essa pessoa existe em algum lugar já é o suficiente pra nos deixar felizes.

Fandom de TLBD - amizade
virtual desde 2012
Então obrigada Sabrina, Andressa, Carol, AB, Bárbara, Luíza, Morgane, Débora, Lorena, Michelle, Fernanda, Tati, Raquel. Obrigada, Jacque, Chris, Doug, Clara, Tathi, Aimee, Amanda, Bruna, Rebeca, Laís, Camila, Mayra, Maynnara, Bianca. Obrigada a vocês cujos nomes eu não citei, cujas presenças físicas eu não posso aproveitar, mas que estão sempre no meu coração e no meu dia a dia - mais até do que muita gente que conheço pessoalmente. Obrigada por estarem comigo às quatro da manhã de um domingo ou âs 9 da noite de uma sexta, obrigada por fazerem dos meus dias o que eles são: especiais, assim como vocês. Obrigada por me deixarem entrar na vida de vocês e por essa troca que a gente tem sempre. Obrigada pela amizade, pelos conselhos e, por que não, pelo amor.

Vocês são únicas. Distância nenhuma pode mudar isso.

#AmorPlusSize: o que elas dizem #2

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É obvio pra todo mundo que me conhece, mas como vocês não estão me vendo, deixa eu contar uma coisinha: eu sou gorda.

Eu sempre me senti gorda, desde criança. Hoje eu olho as fotos e vejo que eu não era, mas por toda a minha vida, eu me senti assim. E eu sempre tive medo de ser zoada sobre isso, medo de alguém perceber, medo de alguém comentar. Eu evitava dizer que era gorda porque na minha cabeça, se eu falasse, as pessoas iam notar. Então ficava assim, vivendo no medo, odiando meu corpo, em silêncio.
Por uma sorte que eu não sei explicar, eu nunca fui zoada. Nunca sofri nenhum tipo de bullying e mesmo dentro da minha família nunca sofri pressão pra emagrecer. Uma vez ou outra ouvi comentários maldosos que me marcaram profundamente, mas nunca foi constante.

Mesmo assim, eu sofri do pior tipo de bullying que existe: eu comigo mesma.

Eu olhava no espelho e odiava o que via. Chorava porque as roupas não caíam bem. Me sentia invisível, indesejada. Me encolhia em espaços públicos com medo de ocupar espaço demais.
Então algo mudou. Eu não sei dizer o que foi exatamente, não houve um ponto específico em que eu decidi mudar essa atitude, só sei que mudei. Passei a aceitar meu corpo, a gostar de como ele era, a me achar atraente. Tive alto e baixos (alguns baixos muito muito baixos), mas comecei a longa jornada que é amar a si mesma. Parece tão simples! Mas é um desafio infinito que a gente enfrenta todos os dias na vida.

E aí no começo dessa jornada, veio Amor Plus Size. Eu comecei a ler sem saber muito o que esperar, sem saber o que vinha pela frente, e de repente eu estava capturada. A história me prendeu e eu devorei o livro. Eu sofria junto com a Mai, comemorava junto com ela, vivia cada segundo da história dela. E o livro passava, página por página, e tudo aquilo era tão bom de ler que eu nem notei o que estava acontecendo. Eu só queria saber da história da Mai, só queria saber como ia terminar, o que ia acontecer.

Só quando o livro terminou que eu percebi: eu era a Mai, a Mai era eu. Eu me identifiquei e aprendi com ela sem nem perceber. E nesse momento, eu chorei, chorei tanto. Chorei porque eu passei por tudo aquilo também, chorei porque me vi representada, porque estava ali tudo o que eu sempre quis dizer e espalhar por aí e não sabia como. Chorei porque tinha acabado de ler tudo que eu precisava ler e eu nem sabia.


Amor Plus Size foi um bálsamo pra mim. Eu me senti compreendida, finalmente.  Eu achei na Mai a força que eu precisava pra continuar bem comigo mesma. Porque é difícil, muito difícil. Tem dias que você se olha no espelho e só quer chorar, só quer se esconder em casa e não ver ninguém. Mas aí eu lembro que isso não é verdade e que eu sou bonita sim. E eu lembro da Mai e da história dela, lembro que essa história não é tão ficção quanto parece e lembro que existem pessoas na minha vida que me acham linda, sim. E fica um pouquinho mais fácil. Um pouquinho que faz uma diferença enorme. Um pouquinho que me permite sair da minha própria cabeça e ir ser feliz de verdade.

- Amanda Nieviandonski

Adicione Amor Plus Size no Skoob - Leia o primeiro capitulo - Divulgue com a tag #AmorPlusSize no Twitter

Para mais informações sobre os direitos do livro, contate: contato@increasy.com.br

#DearMe - uma carta para o passado

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Vi um vídeo muito bacana esses dias no canal da cantora Christina Grimmie. No vídeo, ela passava uma mensagem pro seu eu do passado, coisas que ela gostaria de dizer para si mesma em momentos de dificuldade para ajudá-la a passar pela difícil fase da adolescência. E então pensei: o que eu falaria para mim mesma, se pudesse? Então vamos lá.

Dear Me,
Sei que você está num momento um tanto delicado. Você se acha indigna. Se acha impura. Se acha feia. Se acha errada. Por não pertencer, por não ser, por não parecer, por não querer. Você construiu essa fachada bacana de menina despreocupada, mas por dentro, está gritando. Você se diminui de maneiras que nem percebe. Você se fere achando que é assim que vai se curar.
Queria te dizer que você não precisa fazer isso. Gostaria de te dizer para parar. Infelizmente, daqui do futuro, eu sei que o sofrimento é necessário - só não pelas razões que você imagina. Essa dor que te consome de dentro pra fora não vai te tornar mais pura, mas vai te fortalecer. Você precisa passar por ela para entender e apreciar uma vida mais livre. Me dói te ver sofrendo, mas um dia, quando as nuvens desaparecerem e o sol sair, você vai conseguir enxergar o que eu vejo agora: você cresceu com e apesar da dor, e ela te tornou a pessoa que sou agora. Graças a ela, chegamos onde estamos. Dê valor a essa jornada; você vai aprender muito com ela.
Querida eu, não deixe que te empacotem numa dessas fórmulas prontas de vida. Você não nasceu pra isso. Não deixe ninguém ditar seus sonhos, não permita que as pessoas te desacreditem. Quando duvidar, sonhe mais alto. Suas certezas vem por um motivo. De onde estou agora, posso te garantir que todo o seu esforço valerá a pena. Nenhum sonho é em vão. Não deixe que escolham seu destino, que façam sua cabeça. Seja sua própria pessoa, porque ela é linda. Ela é livre. Ela é você.
Sei que neste momento da sua vida, você acredita que algumas coisas são eternas. Lembre-se que tudo nesta vida tem um final, de um jeito ou de outro. Não deposite sua felicidade inteiramente nas mãos de outra pessoa. Cuide de você e viva para você. Aprenda a se amar para poder amar alguém mais completamente. Desapegue. Entenda, o mais cedo possível, que, embora todos os amores sejam para sempre, nem todos foram feitos para durar. Pessoas entram e saem das nossas vidas o tempo todo. Dê o melhor de si para elas e não aceite menos do que merece de volta. Não viva de migalhas. Doe-se e aceite quando se doarem a você. Você precisa de pessoas, e elas precisam de você. Entregue-se. Viva. Ame. Mas lembre-se de que tudo - até as decepções - acontecem por um motivo.
Acima de tudo, meu querido eu, acredite em você. Sei que é difícil. Na maior parte dos dias, tudo o que você faz é levar a vida. Você se distrai - com a ficção, na própria cabeça, com a vida dos outros - porque pensar em si mesma é doloroso demais. Mas pense. Enxergue-se. Acredite. Eu acredito em você.
Com amor,
Eu.

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Perguntas:
1) Bring Me To Life: livro que te tirou da ressaca literária
2) My Heart Is Broken: livro que você nunca superou
3) Lost In Paradise: livro que te desconectou do mundo
4) Good Enough: livro que você nem amou nem odiou, mas valeu a leitura
5) Missing: um livro que falte para a sua coleção
6) My Last Breath: livro tão tenso que te fez prender a respiração
7) Oceans: livro ou série que você postergou por não ter coragem de terminar
8) Everybody's Fool: livro com capa, título ou sinopse enganosos
9) Made of Stone: livro que fez todo mundo chorar, menos você
10) Call Me When You're Sober: livro que você emprestou e nunca mais teve de volta
11) Taking Over Me: livro que sugou sua vida, seu cérebro, tudo

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