O Diário (nada) Secreto 2 - Capítulo 6

Conheça O Diário (nada) Secreto II

Capítulo 1 - Amigas para sempre

Capítulo 2 - De volta pra realidade

Capítulo 3 - Perturbando a paz

Capítulo 4 - Eu tenho que te contar uma coisa

Capítulo 5 - O que acontece na festa...


Capítulo 6 – ...Fica na Festa?

O que eu, na minha mente alcoolizada, interpretei como uma simples batida de carro, tinha sido, na verdade, algo muito maior – eu só não tinha reparado. O nosso carro se chocou, graças a Deus sem muita força, contra um primeiro carro e rodou para longe; mas esse primeiro carro bateu com um segundo carro antes de parar.
As pessoas que se juntaram à nossa volta toda hora nos perguntavam se estávamos bem, se tinha alguém desacordado. Um cara disse que havia chamado a emergência, e eu ouvi as palavras “sangue” e “desmaiada” mais de uma vez. Todos nós ficamos dentro do carro. A Lana se encarregava de manter a Sabrina acordada, já que a batida dela contra o vidro tinha sido a pior.
Duas ambulâncias chegaram mais rápido do que nós esperávamos. Fiquei em dúvida se deveria ou não chamar a minha mãe – ela ia ter uma síncope e gritar comigo ou sei lá. Mas ficaria ainda mais pirada se eu não dissesse nada. Preferi esperar sair do carro pra ligar pra ela.
Um paramédico me ajudou a sair e me apoiou até a beirada da ambulância, onde eu sentei por um instante. Eu estava meio tonta e dolorida, mas era só. O Edson veio logo em seguida, apertando alguma coisa contra o corte na cabeça, que já tinha sangrado o suficiente pra deixar seu rosto manchado.
A Lana veio acompanhando uma maca, onde minha prima estava. Me levantei de imediato, surtando de preocupação. Não foi uma boa idéia. Junto com a vertigem da batida, vieram as garrafas de cerveja e a vodca da noite inteira e... blééé. Lavei o chão.
Ou melhor, sujei.
Ironicamente, só me perguntaram se eu estava bêbada depois que eu vomitei. Fiz que sim, e refizeram a pergunta pro Edson. Ele disse que não, que só tinha ido nos buscar. Perguntei se a Sabrina ficaria bem, e me disseram que ainda não sabiam, que ela estava com muita dor de cabeça e isso podia não ser um bom sinal. Subi – com muita ajuda – na ambulância pra acompanhá-la até o hospital.
Antes de fecharem a porta, vi a cena toda. Entendi porque tinham dito a palavra “sangue” tantas vezes antes de a ambulância chegar. Do carro em que havíamos batido, somente metade ainda estava quase intacta. O lado do passageiro tinha batido de tal forma contra o segundo veículo que tinha ficado totalmente destruído. O resgate ainda tentava tirar quem quer que fosse de lá de dentro.
Os paramédicos fecharam a porta e a ambulância entrou em movimento. O pior, pelo que dava pra ver, estava longe de já ter passado.

Liguei pra minha mãe pouco depois que cheguei no hospital. Uma médica do ambulatório me examinou e concluiu que não havia nada de errado comigo – exceto por uma marca gigante que o cinto de segurança havia me causado. “Agradeça por isso”, ela me disse. Eu agradeci.
Só então, eu peguei o telefone. Eram 5:20 da manhã. Liguei em casa três vezes antes que ela atendesse:
- Alô! – uma dona Abigail muito estressada exclamou ao telefone.
- Mãe, sou eu. – falei, desejando que a minha voz não soasse assim tãão bêbada quanto definitivamente estava.
- Carlota, cadê você? – de repente ela estava preocupada. Respirei fundo.
- No hospital.
- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO NO HOSPITAL, CARLOTA?
- A gente bateu o carro mãe. – tentei amenizar o tom ela falando mais baixo, mesmo tendo certeza de que não ia funcionar – Eu to legal.
- EM QUE HOSPITAL VOCÊ TA?
- No São Leopoldo, mãe.
- TO INDO PRAÍ!
- Espera! – ela ficou muda – Liga pra tia primeiro. A Sabrina ta aqui. Ela bateu a cabeça, acho que vai ter que ficar em observação.
- AIMEUDEUS, A GENTE CHEGA AI EM UM MINUTO.
E desligou o telefone na minha cara. Suspirei e imaginei o escândalo das duas no telefone, do quanto minha mãe ia aumentar a história e toda a preocupação desnecessária quando elas chegassem. Mãe é mesmo tudo igual.
Fui, então, até a maca onde o Edson estava sentado, levando pontos no corte gigante que só a pouco tinha parado de sangrar. Segurei a mão dele, e ele tentou disfarçar a cara de dor.
- Tudo bem ai? – o enfermeiro perguntou, e ele fez de conta que era fortão.
- Tudo, tudo. – respondeu. Eu ri.
Terminados os sabe-se lá quantos pontos na testa, ficamos sozinhos, de mãos dadas. Ele olhava pra baixo, calado, pensativo.
- Foi minha culpa hoje. – ele murmurou. Eu o abracei.
- Não foi. O cara tava na contramão. – afirmei. Ele sorriu e beijou meu pescoço, me abraçando de volta.
- Desculpa o escândalo hoje. Não vou fazer mais isso.
- Relaxa.
A gente nem teve tempo de conversar direito. A minha mãe e minha tia devem ter desenvolvido algum tipo de teletransporte nos minutos que separaram a minha ligação do instante em que elas entraram correndo no hospital, apavoradas. Minha mãe me abraçou com tanta força que só ajudou a me deixar mais machucada.
- Eu to bem, eu to bem! – eu disse, quando na verdade queria dizer “me solta, me solta!”
- Cadê a Sabrina? – minha tia perguntou, totalmente fora de si. Eu as levei até a médica de plantão, que nos levou até a Sabrina.
Ela estava numa cama na enfermaria, com os olhos semi-cerrados, e uma aparência cansada, a Lana sentada ao seu lado. Não tinha marcas de ferimentos, mas mesmo assim parecia sentir dor. Quando cheguei mais perto, vi que tinha um curativo enorme na parte posterior da cabeça.
- Filha! – minha tia choramingou, chegando mais perto dela. A Lana veio até nós, com um braço numa tipóia.
- Quebrou? – perguntei. Ela fez que não.
- Só uma luxação ou sei lá. Ta doendo pra caramba, mas não quebrou. – respondeu. Eu assenti, e minha mãe se virou pra ela.
- Já ligou pra sua mãe? – ela quis saber.
- Não. É melhor deixar o Edson fazer isso. Ela não vai me escutar se eu tentar explicar o que aconteceu.
- O que aconteceu com quem estava no outro carro? – minha mãe perguntou, então. Nós duas demos de ombros.
- Sei lá. – murmurei. A Lana suspirou.
- Foi uma batida feia. Eu nem vi direito como aconteceu...
- O cara veio na contramão. – expliquei – Ele só... apareceu na nossa frente! Eu gritei pro Edson brecar, mas não deu tempo!
Silêncio. A médica de plantão agora explicava pra minha tia a situação da Sabrina. Pelo que eu ouvi, ela estava bem, graças a Deus. Mas ia precisar ficar no hospital pelo menos até se certificarem de que não havia nada errado com a cabeça dela.
O Edson ligou pra casa por volta das 6:30 da manhã. Mesmo com o volume baixo do celular, dava pra escutar a mãe dele gritando do outro lado da linha. Acho que é coisa de mãe, esse desespero. Não importa se a gente ta vivo. Não importa se ta todo mundo inteiro, nem se o mundo inteiro explodiu. O que você está fazendo num hospital?
Os pais dele e da Lana apareceram por lá mais ou menos umas 7 horas. Ai veio a pior parte. Descobrimos que o motorista do outro carro estava bêbado e que estava ainda desacordado depois de ter batido a cabeça em todos os lugares possíveis do carro. A mulher dele, que estava no banco do passageiro, pelo menos, estava bem, mas tinha quebrado uma das pernas.
Mas tínhamos que falar com a polícia.
Essa parte foi um saco. O policial que nos atendeu foi muito gentil e tudo o mais, mas eu me senti péssima. Estava há umas 24 horas sem dormir, de ressaca, e a última coisa que eu queria era ter que relembrar aquela madrugada. Isso sem contar que eu teria que responder a todas as perguntas na frente da minha mãe! Se o cara me perguntasse se eu tinha bebido – o que, numa boa, era evidente só pela minha cara – eu estava totalmente ferrada! Sem contar que o motivo pelo qual o Edson só viu o carro no último momento era porque ele estava gritando comigo!
Em resumo, eu me sentia péssima.
Mesmo assim, não tinha como escapar. Lá fui eu, acompanhada pela preocupada dona Abigail, responder às perguntas do policial. E tomar uma bronca sem tamanho na frente de todo mundo por ter bebido na noite passada.

Graças a Deus, minha mãe estava preocupada demais pra ficar brava. Quando chegamos em casa, ela me deixou em paz. Aí eu pude tomar um bom banho de 40 minutos – adeus, água do mundo! – e dormir até as 2 da tarde.
Acordei como se não tivesse dormido nem cinco minutos. Estava cansada, dolorida, e com um monte de marcas roxas no corpo. Chequei meu celular, e havia só uma mensagem bonitinha do Edson, dizendo que me amava. Mas eu estava tão cansada que não consegui nem ficar feliz. Simplesmente larguei o celular em cima da cama bagunçada.
Comi alguma coisa e fui pro sofá, onde peguei no sono de novo. Acordei com o telefone tocando, e a voz da minha mãe tranqüilizando pessoas. Então me perguntei: como alguém já sabe do que aconteceu? Decidi que não importava, e cochilei mais uma vez.
Quando acordei, uma hora depois, estava escurecendo e, por incrível que pareça, eu ainda estava cansada. Minha mãe pediu uma pizza e me perguntou como eu estava. Bem, eu disse. Melhor. Tremenda mentira. Eu estava bem pior do que estava antes. Mais dolorida e com muito mais coisa na cabeça.
Só pra começo de conversa, não conseguia deixar de pensar que tinha uma mulher com a perna quebrada e um cara inconsciente porque eu tinha distraído a atenção do Edson durante uma briga! Tinha sido tão... ridículo! Idiota, infantil! Podia ter sido mil vezes pior! Alguém podia ter morrido! E seria tudo culpa minha!
Pensar que o motorista estava bêbado não ajudava. Eu estava bêbada. Se o Edson tivesse conseguido prestar atenção, ele teria desviado antes de a gente bater e tudo aquilo acontecer. Mas não, ele estava ocupado brigando comigo. Meu Deus!
E em segundo lugar, algo me preocupava, e muito. Agora que eu estava sóbria e mais descansada, não imaginei que algo assim fosse me aflorar na memória, mas ali estava, vívido. Eu tinha visto a Lana e o Antônio. Tinha pego os dois no flagra bem no banheiro. O que eu ia fazer com uma informação daquelas?
Quero dizer, a Lana é minha amiga. Claro que é. Eu respeito e adoro a amizade dela. Nós nos damos bem, e confiamos uma na outra o suficiente.
Mas o Diego também era meu amigo. E ele era tão... sei lá, frágil. E ele gostava tanto da Lana... como eu poderia ver uma traição daquelas e não dizer nada? Era covardia! Ele merecia saber.
Mas não era eu quem tinha que contar, certo? Essa obrigação não era minha. E, sendo amiga dos dois, eu não podia simplesmente escolher um pra defender. Bufei. Eu ia levar um longo papo com a Lana quando tivesse chance. E, de preferência, o mais rápido possível.

Logicamente, o assunto já havia se espalhado de algum modo na segunda-feira. Quando cheguei na escola, todo mundo estava olhando pra mim, cochichando. Só a Suellen, na sua inocência completa, parecia não saber o que tinha acontecido.
O que só durou tempo suficiente pra nós chegarmos até a nossa mesa. A Lana já estava lá, junto o Diego, o Henry e um povo que nunca se sentava com a gente. E a Marina.
Ela foi a primeira a se levantar quando nos viu chegando, levando todo mundo a automaticamente olhar na nossa direção. Legal. Acho que hoje eu vou ser a celebridade do dia, pensei. A garota que sofreu um acidente de carro depois da festa.
- E aí? – eu disse, pra ninguém em especial, quando alcancei a mesa.
- Como você ta? – a Marina me perguntou, com uma cara aflita.
Sério, qual é o problema dessa menina?
- To legal. – respondi, com um sorrisinho falso. Tipo, obrigada pela preocupação, mas eu dispenso.
- Eu fiquei apavorada quando a Lana me contou o que tinha acontecido! – ela exclamou, e eu fiz uma careta tipo “hã?”
- Ta...
- E ai, gente? – era a Giovanna, que tinha acabado de chegar. Então, graças a Deus, os holofotes se viraram pra ela.
- Como ta a Sabrina? – a Lana perguntou, por todo mundo.
- Foi pra casa ontem. Acho que amanhã ela já vem pra escola. – a minha prima contou – Foi só um susto.
- E que susto! – a Marina disse.
E então o assunto morreu.
O dia inteiro, não tive chance de falar com a Lana. Ela estava sempre perto de alguém, conversando com alguém, saciando as fofocas. E comigo era quase a mesma coisa – onde eu ia, alguém me perguntava do acidente, queria saber como tinha sido, se estava tudo bem. Me perguntei quem tinha espalhado pra todo mundo do acontecido.
Eu apostava que tinha sido a Marina. Ela tinha bem cara de fofoqueira. E de mentirosa.
Seja como for, voltei pra casa ainda ansiosa, porque simplesmente tinha que falar com a Lana a respeito do que eu tinha visto. Tinha que dizer pra ela que eu tinha visto ela se pegando com o Antônio, e perguntar qual era a dela. Eu sabia que não era nada da minha conta, mas não podia simplesmente deixar que ela fizesse aquilo com o Diego. Não era justo.
Por isso, me deu a louca naquele mesmo dia, e decidi ir até a casa dela. Peguei um ônibus até lá, imaginando se ela estaria em casa. Tinha preferido nem ligar, pra não dar a ela a chance de inventar uma desculpa qualquer.
Pra minha sorte, quando toquei a campainha, foi ela quem atendeu. Estava de pijamas, com uma aparência cansada, e estranhou quando me viu.
- Meu irmão não ta em casa. – avisou, antes mesmo de abrir o portão.
- Eu vim falar com você. – afirmei. Ela me olhou, suspeita, mas mesmo assim abriu e me deixou entrar.
- Eu te vejo todo dia na escola! – exclamou, e eu ri.
- Não tive muita chance de falar com você hoje, com aquele bando de urubus seguindo a gente pra todo lado.
- E por que não esperar até amanhã?
- É meio urgente.
- Aconteceu alguma coisa?
- Acho que você sabe muito bem a resposta pra isso.
Primeiro, a Lana me olhou como se não entendesse aonde eu queria chegar. Então seu rosto moreno pareceu empalidecer, e ela me olhou com grandes olhos cheios de culpa. Só aí, nos entramos e subimos pro quarto dela.
Lá dentro, ela ficou andando pelo quarto por alguns minutos enquanto eu me sentei na cama dela e esperei. Então a Lana veio, se sentou ao meu lado e fungou, com os olhos já cheios de lágrimas.
- Eu vi você e o Antônio lá na festa. – murmurei, e ela deu um soluço alto.
- Eu fiz merda, Lolita! – a Lana me disse, chorosa – Droga, só... sei lá, nem dá pra dizer que simplesmente aconteceu. Eu sabia o que eu tava fazendo, entende? E na hora eu estava, sei lá, tinha acabado de brigar com o Diego...
- Você sabe que não justifica. – apontei, e ela assentiu, fungando.
- O pior é que eu sei! – respirou fundo – Eu nem sei a quem eu to querendo enganar, Lolita! As coisas entre mim e o Diego não estão nada boas! A gente briga por tudo, discute por coisas bobas...
- Eu sei bem como é isso!
- Acho que o Antônio só terminou de estragar tudo, sabe? Antes era só uma quedinha, e a gente ficou meio amigo, e ai na festa eu fui desabafar sobre o Diego e uma coisa levou a outra, e quando eu fui ver...
- Você estava se amassando com ele no banheiro.
Ela soluçou e chorou mais alto. Eu e meu incrível dom com as palavras, fala sério!
- Desculpa. – pedi, fazendo uma careta – Ai, desculpa, mas é verdade. E eu realmente não gosto de me meter numa coisa que não é da minha conta, mas Lana, você não pode simplesmente passar por cima de uma coisa dessas!
- Eu sei que não! – exclamou – Ai, Lolita, eu não consigo nem olhar pra cara do Diego! Ele veio me pedir desculpas hoje por ter sumido e por ter sido grosso comigo na festa, e eu nem sabia o que dizer! – soluçou – Pra falar a verdade, eu não consigo olhar pra ele, nem pro Antônio, nem pra minha própria cara no espelho!
- E o que você vai fazer?
- Eu não sei! Eu sei lá, Lolita, sei lá! – ela enterrou a cara nas mãos e chorou. Fiz o melhor que uma amiga podia fazer, e a abracei.
- Eu sou uma idiota. – ela resmungou. Eu não disse nada, porque, se fosse pra dizer alguma coisa, eu provavelmente acabaria concordando com ela.
E acho que isso não faria bem algum.
- Eu to aqui, ta legal? – eu disse, então – Vou te ajudar a resolver isso da melhor forma possível.
- E como é isso?
- Vou te ajudar a contar a verdade pro Diego.
Ela não pareceu feliz. Na verdade, ela só chorou ainda mais. Mas, pensei, talvez ela devesse ter pensado nisso antes de fazer o que fez. Agora, chorar não adiantava mais nada.

Ok, então eu talvez estivesse cercada de fatos estranhos. Na verdade, a minha mais nova teoria era de que eu tinha caído num buraco interdimensional, e que agora eu estava numa nova dimensão, em que o mundo parecia exatamente igual, mas as situações estavam completamente diferentes.
Porque, nesse mundo bizarro e novo, eu e o Ricardo tínhamos voltado a nos falar. Publicamente.
Ta, eu sei que eu tinha falado com ele na festa. E que tinha sido ótimo, e super descontraído e legal. Beleza. Mas eu estava bêbada, e era uma festa, e, depois do acidente, comecei a pensar que talvez aquilo fosse coisa da minha imaginação. Ainda mais quando ele nem falou comigo na segunda-feira de manhã.
Só que aí chegou a terça, e, quando eu entrei na escola, ele foi o primeiro a me alcançar.
- E aí? – ele disse.
Pausa para a minha expressão de “hã?”
- Oi. – eu falei, tentando não fazer uma careta, nem perguntar porque ele estava falando comigo.
Ai ele me deu um beijo no rosto, e a gente continuou andando.
Bizarro.
- Como é que ta? Fiquei sabendo do negócio do acidente! – ele continuou, como se a gente se falasse todo dia.
- Ah, ta tudo bem. Não foi nada muito grave. – respondi, aos poucos me recuperando da estranheza original. Ele fez uma careta.
- O que, então não é verdade que teve um incêndio e tiveram que chamar os bombeiros? – ele perguntou. Eu comecei a rir.
- Meu Deus, a que nível chega a fofoca nessa escola!
- Na verdade, eu acabei de inventar essa! – nós rimos – Mas eu ouvi alguma coisa sobre a sua prima estar em coma, ou sei lá! É verdade isso?
- A Sabrina ta bem, ela só tem que ficar em casa por uns dias porque ela bateu a cabeça.
- Deve ter batido bem antes, pra ter ficado comigo na festa!
- Deve ter batido com muita força.
O Ricardo riu dessa, e eu também. Eu nem sabia que conseguia fazer piadas com ele. Eu nem sabia que conseguia falar com ele numa boa.
A gente parou um pouco antes de chegarmos na mesa aonde todo mundo já estava. Na verdade, na mesa onde todo mundo já estava olhando pra gente.
- Bom, mas pelo menos não aconteceu nada, né? – ele sorriu, e, do nada, deu um apertão na minha bochecha – Te vejo na sala, Lolinha!
E então saí andando.
Eu estava vermelha como a droga de um pimentão, mas não de nervosismo, como costumava ficar. Só de vergonha mesmo. Era estranho ele me chamar de Lolinha – a última vez que ele tinha feito isso tinha sido pra tentar ficar comigo – e ter apertado a minha bochecha – ele costumava fazer isso quando estávamos na sexta série e eu era apaixonada por ele.
Todo mundo fingiu estar falando de outra coisa quando eu cheguei. Eu sei que estavam fingindo porque a Lana estava cochichando alguma coisa pra Marina, e porque a Suellen estava perguntando pro Diego –eles quase nunca se falavam – alguma coisa sobre ter uma prova aquela semana. Eu ignorei e disse um bom dia animado.
A estranheza não parou por aí. Na verdade, ela estava apenas começando. Meu buraco interdimensional se provou um verdadeiro rombo no meio da normalidade, e o Ricardo voltou a se sentar na minha frente, e a falar comigo, e a fazer piadas como se eu fosse qualquer pessoa normal que senta atrás dele.
E, o que era mais estranho, era que eu estava adorando.
A Sabrina voltou pra escola dois dias depois. Mesmo dia em que o Antônio resolveu aparecer na aula.
A mudança de clima era quase material naquele dia. Todo mundo estava feliz e cercando a minha prima e perguntando como ela estava de um lado. Do outro, a Lana estava sentada, fingindo que fazia lição de casa, ao lado do Diego.
Eu estava sinceramente morrendo de vontade de bater nela, de dizer pra ela que o que ela estava fazendo era ridículo, mas fiquei quieta. Não era a minha vida, afinal de contas. Eu estava puta porque era totalmente injusto com ele, e a Lana sabia que não tinha mais o que levar adiante. Mas mesmo assim, lá estava ela, fazendo de conta que não via nada, que não tinha feito nada.
Mas pelo visto, eu não fui a única que percebeu. Na verdade, naquela semana de coisas bizarras, algo ainda mais bizarro aconteceu.
Eu estava na minha, na biblioteca, durante o intervalo, folheando uns livros pra ver se achava alguma coisa interessante, quando alguém me cutucou. Virei pra trás e vi...
O Antônio.
Pausa dramática.
- Oi. – ele me disse, dando um sorrisinho.
E eu tenho que admitir, mesmo o menor dos sorrisinhos dele já é a visão do paraíso. Como uma pessoa podia ser tão bonita? Dava quase pra entender porque a Lana...
Não, não dava não!
- Oi. – eu respondi, tentando não parecer idiota, nem sem jeito. Acho que eu tinha falado com ele umas duas vezes em sei lá quantos meses de aula.
E todas as conversas se resumiam em “oi, Lolita, tudo bem?”
- Escolhendo um livro? – ele perguntou, daquele jeito de quem pergunta alguma coisa só pra puxar assunto.
- É, mas essa biblioteca só tem velharias cheias de pó. – respondi, assentindo sem saber por quê.
E aí o assunto morreu. Mas eu já desconfiava da razão pela qual ele estava lá, tentando puxar conversa comigo. Ele me olhava fixamente, de um jeito muito nervoso.
- Sobre o que você viu lá na festa... – ele começou, e eu fiz uma careta e ergui a mão.
- Eu sei o que eu vi, Antônio. – afirmei – Foi... eu nem tenho palavras pra isso!
- Eu não disse nada pra Lana, pra não deixar ela preocupada. – o Antônio disse, e eu meio que achei bonitinho da parte dele. Então guardei o livro que estava na minha mão de volta no lugar antes de suspirar e dizer:
- Tarde demais. Ela já sabe que eu sei.
E então o rumo da conversa foi outro.
- Lolita, não conta pra ninguém, por favor! – ele me implorou. Precisei de um minuto de queixo caído pra entender o que ele tinha acabado de me dizer. E como tinha dito.
- Eu não sou nenhuma fofoqueira, Antônio!
- Eu não disse isso...
- Olha, não se preocupa comigo, ta legal? Com sorte, só eu vi vocês dois lá naquele banheiro. Eu não vou contar nada pra ninguém porque eu não tenho nada a ver com isso.
Ele pareceu muito mais aliviado. Mas eu ainda estava com raiva alheia por causa daquilo.
- Mas foi muito, muito, muito feio isso que vocês fizeram! – exclamei, me sentindo a minha mãe – A Lana tem namorado, Antônio! Se ela não respeitou isso, pelo menos você devia ter tido bom senso.
O Antônio me olhou com aquela cara de “o que você quer que eu faça?” e eu bufei.
- Que seja, não é da minha conta. – murmurei.
Então passei por ele em direção à saída.
Virei pra trás por um momentinho pra ver se ele ainda estava lá, e pude reparar no corredor ao lado. Lá estava a Ariane, simplesmente a garota mais fofoqueira da escola, com um livro fechado na mão e a maior cara de quem tinha acabado de ganhar na loteria.

Merda.

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