O Diário (nada) Secreto 2 - Capítulo 9

Conheça O Diário (nada) Secreto II

Capítulo 1 - Amigas para sempre

Capítulo 2 - De volta pra realidade

Capítulo 3 - Perturbando a paz

Capítulo 4 - Eu tenho que te contar uma coisa

Capítulo 5 - O que acontece na festa...

Capítulo 6 - ...fica na festa?

Capítulo 7 - Um final infeliz

Capítulo 8 - Laços... de Família?


Capítulo 9 – Verdades Nunca Ditas

Quem nunca ficou cansado das férias logo na primeira semana, que atire a primeira pedra.
Porque, vou te falar, quatro dias em casa sem fazer absolutamente nada e eu já estava com vontade de gritar.
E tudo bem, eu tinha meu celular de volta, e acesso ao telefone e, quando minha mãe não estava, acesso à pobre internet discada lá de casa. Mas a Suellen estava presa pra vida toda, o Diego sumira, a Lana andava pra cima pra baixo ora com a Marina, ora com o Antônio, as minhas primas mal apareciam e eu estava...
Sozinha.
Meu namorado também não estava ajudando. O Edson não estava exatamente desocupado nas férias; ele sempre tinha alguma desculpa perfeita pra não poder me fazer companhia. Eu já estava completamente cheia daquele comportamento mala dele, mas decidi deixar para lá. Um mês passava depressa.

Um mês se arrastava.
Essa era a conclusão a que eu chegava quando cheguei ao dia 10 de julho na mesma velocidade que teria chegado ao dia 10 de dezembro de 2040.
Eu passava as manhãs assistindo desenhos animados no Cartoon Network, e a tarde procurando filmes legais no Telecine. E comendo. Como acontecia sempre que eu ficava sem nada pra fazer, comer era a minha maior diversão. Tentei umas três receitas de doces diferentes que peguei no programa da Ana Maria Braga, até que minha mãe me proibiu de cozinhar quando percebeu que eu tinha tanto dom pra manter a cozinha em ordem quanto tinha pra cozinhar: nenhum.
Quando a falta do que fazer batia com mais força, eu saia pelo condomínio e ia assistir as crianças jogarem bola no campinho, ou tentar encontrar com algumas velhas companheiras de brincadeiras. Mas elas tinham novas amigas, e namorados, e uma turma própria, e já não tinham mais nada a ver comigo. Então eu voltava pra casa e me enterrava de novo no sofá.
Minha mãe teve a piedade de me levar ao shopping num final de semana, quando ela percebeu que eu iria acabar definhando. Por algum milagre, o Edson aceitou meu convite de ir com a gente. Passamos pela casa dele, e fomos pro shopping por volta das três da tarde. Primeira parada: Mac Donald’s.
- Vou pegar alguma coisa saudável pra comer. – minha mãe nos disse, e me deu dinheiro pra pagar meu lanche.
- Não se preocupa que eu pago pra ela, Abigail. – o Edson se prontificou, e mamãe sorriu. Ela adorava ele. Ainda mais quando ele resolvia pagar as minhas contas.
O que, devo acrescentar, só acontecia uma ou duas vezes no ano.
Depois que mamãe se afastou, eu respirei fundo e olhei pra ele. O cabelo do Edson estava crescendo, e ele não pretendia corta-lo. Parecia mais velho do que nunca, cansado e entediado.
- E aí, como tem sido as férias? – eu perguntei, como quem não quer nada. Na realidade, só queria que ele me dissesse o que tinha feito enquanto eu era entregue às traças dentro de casa.
- Normais. Levo a Lana pra lá e pra cá, saio de vez em quando com os caras lá da faculdade... – respondeu. Eu assenti.
- Legal.
- E as suas?
- Ah, normais. Fico em casa o dia inteiro sem fazer nada. Bem chato.
Ele não respondeu. O que só me deixou mais irritada.
- Você podia passar lá em casa de vez em quando. Eu fico o dia todo sozinha. Seria legal se o meu namorado resolvesse me fazer companhia.
Ele me olhou de um jeito estranho, e então sorriu. Percebi que aquilo não tinha soado como uma bronca, como eu pretendia, mas como um convite com segundas intenções.
O que, acredite, totalmente não era a minha intenção.
- Vou fazer isso. – ele disse.
Comemos e eu decidi não dizer mais nada pra não dar a entender nada que eu não quisesse, nem me irritar ainda mais. Passamos pela livraria, onde eu estourei o cartão de crédito da minha mãe comprando uma pilha interminável de livros e de revistas de cruzadinhas. Até onde eu podia ver, aquilo ainda seria pouco pro que pareciam ser as férias mais insuportavelmente chatas da minha vida.

E lá estávamos eu e o sofá, eternos namorados. Agarrados por mais um longo dia. Eu estava cochilando enquanto a TV falava sozinha, sintonizada na reprise de Beverly Hills 90210, quando o telefone tocou.
- Alô? – atendi, meio desorientada.
- Ahn... alô, quem fala? – uma voz de homem disse do outro lado da linha.
- É a Lolita.
- Oi, Lolita. Sua mãe está?
Meu Deus.
Era o meu pai.
Fiquei um minuto boquiaberta sem conseguir responder. Ele nunca ligava em casa. Ou aparecia. Ou lembrava que alguma de nós existia, até brigar com a minha mãe por causa da pensão. Por que diabos ele estava ligando?
- É quarta-feira e são duas e meia da tarde. – respondi, seca – Algumas pessoas trabalham nesse horário.
- Só avise pra ela que eu liguei. Diz que é urgente.
- Que seja.
Desliguei na cara dele sem dó nem piedade e fiquei olhando pro telefone, tentando me decidir entre gritar ou atirar o aparelho na parede. No fim das contas, só o coloquei de volta no lugar e fiquei sentada no sofá, olhando pra TV sem prestar atenção.
Meu pai era, sem dúvida, o cara mais sem coração do mundo. Desde... muito tempo nós não nos falávamos. Ele havia me dado um bolo no dia dos pais. Não aparecera no meu aniversário de 15 anos. E quando ligava, sequer perguntava se eu estava bem. Realmente muito legal.
Eu realmente não precisava de pai.

Os dias se passaram, e Julho não acabava nunca.
Eu já estava com a bunda quadrada de tanto ficar no sofá, e cheirando a mofo de tanto ficar dentro de casa. Quando o desespero apertava, eu me colocava pra fazer coisas que nenhum ser humano normal faria em situações normais; tipo limpar a casa. De livre e espontânea vontade, decidi lavar o banheiro. Limpei a cozinha. Num dia em que a coisa estava realmente feia, tirei todas as panelas do armário e limpei tudo antes de colocar de volta.
Eu estava desesperada.
Lá pra metade do mês, a casa estava brilhando e eu não tinha mais absolutamente nada pra fazer. A locadora não tinha mais nenhum filme que me interessasse, e meus livros já estavam acabando. Já estava pensando em que loucura fazer pra passar o tempo quando o interfone tocou.
- Alô.
- Oi, é o Joaquim da portaria. – disse a voz do outro lado – A... Suellen ta aqui embaixo. Pode mandar subir?
Suellen? Ela não estava de castigo pro resto da vida?
- Pode, pode sim. – confirmei. Então desliguei e esperei a campainha tocar.
Poucos minutos depois, ela tocou. Abri a porta, e a Suellen veio pra cima de mim como uma maluca, me abraçando com força e gritando.
Mas não estava chorando.
- Meu Deus, o que foi? – perguntei, tentando fechar a porta com ela agarrada ao meu pescoço.
- VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR! – ela berrou.
E, sério, ter alguém berrando bem do lado do seu ouvido não é brincadeira.
- Calminha, senta ai e me conta. – pedi. Ela me soltou, e eu pude recuperar o ar, fechar a porta e dar uns segundos pro meu ouvido parar de apitar.
O sorriso da Suellen era tão grande que nem parecia a mesma garota que semanas atrás estava morrendo de tanto chorar. Me sentei do lado dela com uma careta curiosa, então perguntei:
- Ok, agora, com calma, o que aconteceu?
Ela riu sozinha e respirou fundo antes de responder.
- Você não vai acreditar, Lolita. Eu... – parou e me olhou com aquela cara de “fazendo suspense”.
- Ai, fala logo! – exclamei, dando uma almofadada nela. Ela riu.
- Lolita, eu e o Daniel... – suspirou – Nós não somos primos.
Pausa dramática. Por um momento, eu considerei a possibilidade de os neurônios da Su terem derretido de vez.
- Como assim? Não são? – perguntei. Meu queixo tinha caído tanto que, se eu não fechasse a boca, ia começar a babar.
- Não! – ela exclamou, obviamente maravilhada – Ele não é filho dos meus tios!
- Ele é filho de quem?
- Eu não faço a menor idéia! – ela disse isso com uma alegria tão grande que parecia que estava comentando sobre uma liquidação de sapatos – Ele é adotado! Adotado, Lolita! Ele não faz nem parte da minha família!
- E ele não sabia disso?
- Não! Meus tios nunca disseram nada, a gente nunca nem suspeitou. Ai eles ficaram sabendo do meu rolo com o Daniel e resolveram contar. Eles ficaram do nosso lado!
Aquilo era totalmente surreal. Parecia coisa de filme. Por fim, eu sorri e a abracei.
- Eu estou super feliz por você, sério! – falei. Então a soltei, e uma coisa me ocorreu – Su, os seus pais sabiam sobre isso?
O sorriso dela diminuiu, até quase sumir.
- Sabiam. – respondeu, mais baixo e menos animada – Eles sabiam e não me disseram nada.
- Então pra eles, o fato de vocês não serem primos de sangue pelo jeito não muda nada, né? – indaguei, com uma careta. Ela deu de ombros e suspirou.
- Eu não to nem aí pro que eles acham, Lolita. Antes eu me sentia errada, sabe? Mas ele não é meu primo, então, que se dane.
- E o que você vai fazer? Você ainda ta de castigo.
Ela riu.
- Eu quero ver quem vai me segurar em casa.
- Bom, pelo menos os seus tios estão do seu lado, né? Acho que isso ajuda um pouco.
- Acho que piora tudo, na verdade. Virou uma porcaria de uma guerra em família.
- Que droga.
- Meu pai e meu tio estão sem se falar, a Bela me olha como se tudo isso fosse culpa minha e minha mãe não fala comigo. Ai eu fujo pra casa dos meus tios e tudo que é parente se mete na história. – ela bufou. Parecia cansada – Queria que eles parassem com isso, sabe? Não é da conta de ninguém. Qual é o problema de eu namorar o Daniel, droga?
Não respondi. Não sabia o que dizer. Pra mim, não havia problema uma vez que eles simplesmente não eram primos de verdade. O resto podia ser contornado. Mas pro resto da família podia simplesmente não funcionar desse jeito. Eu entendia porque tudo estava um pesadelo pra ela.
- Mas relaxa, que no final tudo dá certo. – afirmei, tentando conforta-la.
Mas acho que nem eu acreditei muito nisso.

Não sei se as coisas deram muito certo pra Suellen. Primos ou não, nada impediu que os pais dela mantivessem o castigo à risca o máximo possível, o que significava que ela nunca podia atender o telefone quando eu ligava. No fim das contas acabei desistindo de ligar e decidindo que eu poderia esperar até o começo das aulas pra saber no que aquela história tinha dado.
Eu já estava contente por estar no meio de julho e ainda não ter sido mumificada pelo tédio, quando, pra minha enorme surpresa, o Edson me ligou me dizendo que ia passar a tarde em casa. Ele chegou trazendo um pote de sorvete e dois filmes alugados. Nem discuti, e logos nos instalamos na sala pra assistir o primeiro deles.
Acho que nem preciso dizer que todo o negócio de filme-com-sorvete não durou muito mais do que meia hora, né?
Logo, logo, já estávamos nos beijando no sofá, e daí pros amassos foi um pulo. Até aí, bem normal. Quero dizer, eu já namorava o Edson há um bom tempo, e eu nunca fui exatamente santa.
Mas, em algum ponto, as coisas realmente começaram a esquentar. De repente, o sofá ficou pequeno, e eu já estava com ele em cima de mim. Suas mãos estavam literalmente em todos os lugares, e respirar já não era mais uma opção. Só tinha um probleminha.
A animação dele estava bem maior do que a minha.
Quando ele avançou a mão e começou a subir a minha blusa, eu simplesmente... surtei.
Não, eu não saí gritando. Não sou assim tão maluca. Mas eu o empurrei e pedi pra respirar um pouco.
Uma coisa que toda garota que namora (ou já namorou) deve ter reparado sobre os garotos é que nenhum deles, por mais compreensivo que seja, gosta de ser parado quando a coisa está ficando boa. Eles até podem tentar disfarçar, mas dá pra perceber a expressão de “porra, justo agora?” e o esforço que ele faz pra não te agarrar quanto à sua vontade.
Então dá pra ter uma prévia da cara do Edson quando nos sentamos de novo. O filme rodava sozinho, e eu já nem sabia mais do que se tratava. Me ajeitei, arrumei o ninho que meus cabelos tinham virado, e tentei respirar com calma o suficiente pra fazer meu coração parar de bater como se ele fosse sair correndo por aí.
Um tempinho passou, e as coisas voltaram mais ou menos ao normal. Terminamos de assistir o primeiro filme, e eu fui levar a louça suja de sorvete pra cozinha. Ele me deu um baita susto quando me agarrou por trás.
É, eu sei como isso soa.
Ele beijou meu pescoço, me virou e me beijou de um jeito... louco. Literalmente, ele me pegou de jeito. Então me ergueu e me colocou sentada na pia. Eu sei lá o que foi que me deu, mas eu passei as pernas pelo tronco dele e o puxei pra mais perto de mim.
A coisa toda estava realmente ficando muito quente. Ele nunca tinha me pegado daquele jeito, de modo que era a primeira vez que eu realmente percebia o quanto ele tinha pegada (se é que todo mundo me entende). Eu estava sem ar de tanto que ele me beijava.
Só que, de novo, começou a ficar forte demais. Ele pôs as mãos por dentro da minha blusa, e até ai estava quase tudo muito bem. Mas toda a minha animação foi substituída por um rápido ímpeto de parar tudo no exato momento em que ele abriu o fecho do meu sutiã.
- Para, para, para. – pedi, empurrando-o.
Ele me olhou com uma careta.
- Que foi? – me perguntou.
- Ta... – respirei fundo, então tirei as mãos dele de mim – Indo um pouquinho rápido.
Desci da pia e fechei meu sutiã, sentindo o meu rosto ficar mais vermelho que um pimentão. O Edson ainda me olhava estranho.
- Sabe, Lolita, a gente namora há quase um ano. - afirmou.
Foi a minha vez de fazer uma careta.
- E daí? - retruquei. Ele bufou.
- Acho que já está na hora de eu poder encostar em você, não acha não?
- Você encosta em mim o suficiente. Não precisa abrir meu sutiã.
- Você me entendeu.
Entendi. Todo namoro chega nesse ponto em algum momento - especialmente quando o seu namorado tem 18 anos e você já tem quase 16. Ele espera que você já esteja grandinha o suficiente pra que o namoro passe pra segunda fase. Você espera que ele esteja grandinho o bastante pra entender que não é bem assim que a coisa rola.
- É que... sei lá. - suspirei e baixei a cabeça. Agora eu estava realmente corada - Eu me assusto, entende? Não to preparada pra isso ainda.
- Eu não vou te forçar a nada, você sabe. - ele disse, segurando a minha mão. Eu tentei sorrir - Mas é que as vezes é difícil de me segurar.
Mordi o lábio. De repente, uma perguntinha que eu nunca havia me feito me passou pela cabeça.
- Posso fazer uma pergunta?
- Pode.
- Você é... virgem?
Só pra todo mundo saber: eu tenho um problema sério pra falar de sexo. Eu simplesmente não consigo. Então, quando eu digo que precisei de um puta esforço pra conseguir soltar a palavra "virgem", acreditem, precisei mesmo.
O Edson não me respondeu. Ele torceu o nariz, e cruzou os braços. Aquilo fez cair o meu queixo. O silêncio era o suficiente como resposta.
- Por que você nunca me contou? - perguntei, chocada.
- Você nunca perguntou. - ele respondue, dando de ombros. Não olhava pra mim.
- Nunca me passou pela cabeça perguntar.
Eu já estava pronta pra perguntar com quem tinha sido - embora uma parte de mim preferisse não descobrir - quando o telefone tocou. Fui atender, e o assunto - e o dia juntos - morreu ai.m pouquinho rm - Indo reta;.
 em que ele abriu o fecho do meu suti vez que eu realmente percebia o quanto ele tinha pegada (se

Claro que aquilo ficou na minha cabeça por dias.
As coisas entre mim e o Edson voltaram ao seu ritmo bizarramente distante que vinha atingindo nos últimos meses. Eu estava com vergonha de olhar pra ele, somado ao fato de que toda vez que eu pensava na gente, ia sem querer pra grande pergunta: com quem tinha sido?
Não sei por que eu tinha essa ilusão louca de que todo mundo era virgem. Especialmente o meu namorado. Eu tinha passado um tempão meio afastada do Edson antes de a gente namorar, então eu não sabia muita coisa sobre o passado dele ou sobre as garotas do passado dele, mas por alguma razão nunca me ocorreu perguntar porque pra mim a resposta era óbvia: ele era e pronto.
E ele não era. Balde de água fria.
Eu tentava realmente não pensar no assunto e me convencer de que não mudava nada, só que era difícil. Por um lado, realmente não mudava nada: quero dizer, se eu não tivesse perguntado, nunca saberia e nada teria mudado, certo? Então queria dizer que não fazia diferença.
Mas, por outro lado, era um saco saber que o seu namorado já tinha transado com outra garota. Ou garotas. Meu Deus, só de imaginar já me dava ânsia. Será que eu ia passar o resto da minha vida imaginando ele com outra garota toda vez que o visse?
Era um saco.
Uns cinco ou seis dias depois, eu já estava completamente dominada por essa questão. Precisava me distrair. Liguei pra Lana e perguntei se ela queria fazer alguma coisa.
Naquela mesma tarde, lá estávamos nós passeando pelo Shopping Ibirapuera. Aquele lugar era tão grande que eu tinha a impressão de que nunca conseguia andar por ele todo. Eu e a Lana entramos ema algumas lojas, tomamos um sorvete, fofocamos um pouco sobre a vida – dos outros, é claro.
- Essa história toda da Suellen é verdade? – ela me perguntou, enquanto parávamos pra olhar uns sapatos.
- Como você soube? – perguntei, fazendo uma careta. Ela riu.
- O Daniel contou pra alguém, que contou pra outra pessoa, e foi contando e contando até chegar no ouvido da Marina. – respondeu. Eu revirei os olhos. Aquela fofoqueira.
- É verdade sim. – confirmei – Ela ta bem aliviada agora. Mas acho que não mudou nada pros pais dela.
- Que coisa horrível foi essa de nunca terem contado pra eles, né? Se eu fosse adotada, ia querer saber.
- Também achei uma sacanagem, mas acho que nunca mudaria pra ele saber isso se não fosse por todo o rolo com a Suellen.
- É... sei lá.
O assunto foi substituído por comentários sobre os sapatos até passarmos pra próxima vitrine. A pergunta estava na ponta da minha língua, mas eu estava com uma puta vergonha de parecer uma namorada ciumenta paranóica no exato momento em que eu falasse.
Então respirei fundo e perguntei, sem pensar demais:
- Lana, com quem o Edson namorou antes de mim?
Ela me olhou e pensou um pouco. Continuamos andando por um tempinho sem que ela me dissesse nada.
- Ah, Lolita, eu não sei. – respondeu, dando de ombros – Eu não me lembro de ele ter namorado com ninguém antes de você. Tipo, ele namorou a sua prima por um tempinho, claro, mas ninguém antes dela até onde eu sei. Ele ficou com umas meninas, mas nada muito sério.
Assenti, sem responder.
Então ou a) ele havia transado com uma menina qualquer que nem namorada dele era; ou b) tinha sido com a minha prima Giovanna.
Nenhuma das duas opções me deixava mais tranqüila.
- Por que? – a Lana indagou, então, curiosa – Algum problema com “fantasmas” de ex-namoradas?
- Mais ou menos. – mordi o lábio. A Lana era minha amiga e tudo, mas eu não me sentia bem falando desse assunto com basicamente ninguém além de mim mesma.
- Se eu puder ajudar... – ela insistiu, mas eu vi que não queria forçar a barra. Suspirei e balancei a cabeça.
- É idiotice minha. Não liga não.
- Ta bom, então. – então me puxou pelo braço pra dentro da loja que estávamos olhando - Vem, eu acho que vou comprar essa blusa.

As férias já estavam quase acabando, e eu estava genuinamente aliviada. Ficar em casa estava se tornando um pesadelo, e tanto tempo livre abria espaço pra um milhão de pensamentos inúteis – que basicamente sempre se limitavam ao fato de eu ter descoberto que, não, meu namorado não era virgem. E que possivelmente ele teria transado com a minha prima.
Claro, me ocorreu simplesmente perguntar a ela. Mas eu e a Giovanna não éramos exatamente as melhores amigas do mundo, e sempre ia rolar aquele estranhamento mútuo pelo fato de eu namorar o cara que namorava com ela. Eu não podia simplesmente chegar e dizer “e aí, priminha, deixa eu perguntar, por acaso você tirou a virgindade do meu namorado? Só por curiosidade.”
Acho que não.
Faltando uma semana pro fim das férias, mamãe tirou um dia de folga pra passar comigo. Eu teria ficado super feliz, não fosse o fato de que a senhora Advogada recebeu uma droga de uma ligação de uma cliente que simplesmente precisava falar com ela aquela tarde. Minha mãe virou uma maluca em questão de minutos. Literalmente entrou em desespero.
- Lolita, será que você pode dar uma saidinha, filha? – ela me pediu. Fiz uma careta.
- A mulher vem pra cá? – perguntei. Nenhuma cliente da minha mãe jamais tinha ido conversar com ela em casa. Minha mãe bufou, suando de preocupação.
- É, filha. – respondeu, impaciente – Só por algumas horinhas. Eu só preciso resolver isso, ok?
- Mãe, eu não sou nenhuma criança chata. Eu me tranco no meu quarto e você nem vai me ver, prometo.
- Lolita, eu não to te pedindo nenhum sacrifício. Liga pro seu namorado e, sei lá, vai pro cinema, pra qualquer lugar.
- Poxa, mãe, a gente não ia passar o dia juntas? Que saco!
- Eu também acho, Carlota. Agora anda, se arruma e decide o que você vai fazer que essa maluca dessa... cliente está chegando.
Aquela história estava muito estranha. Tipo, absurda. Mas eu acabei indo pro meu quarto e trocando de roupa, sem fazer a mais puta idéia do que eu ia fazer fora de casa. Não queria encontrar o Edson, porque ainda ficava me fazendo um milhão de perguntas toda vez que o via. A Lana talvez estivesse com o Antônio, e pra ver a Suellen eu teria que entrar na casa dela e passar pela Bela.
Eu ia ter que me virar sozinha.
Dei uma enrolada pra ver se a minha mãe mudava de idéia, mas nada. Pelo contrário, ela ficou mais e mais desesperada. Deu uma geral na casa, tomou um banho de dois minutos. Quando ela estava prestes a me atirar pela janela, eu peguei o celular, as chaves e saí.
Mas não fui a lugar nenhum. Fiquei zanzando pelo condomínio, fiquei um pouco no balanço no playground infantil. O tempo todo eu mantinha um olho na frente do meu prédio. Queria ver quem era a cliente doida que ia tirar minha mãe do sossego dela em pleno dia de folga.
Nos primeiros dez minutos, nada de anormal. Quero dizer, um monte de pessoas indo e vindo, óbvio, mas apenas o zelador, uns moradores e gente dos outros prédios. Ninguém com aparência de ser uma mulher necessitada de uma advogada competente pra, sei lá, processar um cabeleireiro que trocou a cor da tinta sem permissão.
Até que eu vi alguém chegando, alguém que não era o zelador, e que não morava no condomínio. Andava com pressa em direção ao meu prédio. Mas não era uma mulher bem arrumada. Era uma garota, provavelmente da minha idade, de cabelos pretos, calça jeans, casaco e All Star nos pés. Cheguei um pouco mais perto pra tentar ver melhor, mas ela já tinha entrado no prédio.
Eu estava me sentindo uma perfeita idiota perseguindo aquela infeliz como se fosse uma espiã dos filmes do James Bond, mas mesmo assim, fui até a porta do prédio e tentei não ser vista enquanto a observava, esperando pelo elevador. Havia alguma coisa tão familiar naquela garota, mas eu não conseguia dizer exatamente quem ela era. Estava na ponta da língua, mas o nome não me vinha à cabeça. Se ao menos eu pudesse ver o rosto dela...
O elevador chegou, e abriu a porta. Dois moleques saíram correndo com uma bola, trombando nela. Ela entrou no elevador, se virou e apertou algum botão de andar. E aí sim eu pude dar uma boa olhada na cara dela.
O que diabos a Marina estava fazendo no meu prédio?
Depois de um minuto completamente desconcertada, consegui me mexer e entrei no prédio em direção ao elevador. Apertei o botão e esperei, impaciente, mas ele parecia não chegar nunca. Droga, tinha alguma cosia muito errada nessa história. O que aquela infeliz estava fazendo ali? Será que ela era tão tapada que tinha vindo me fazer uma visitinha de cortesia?
O elevador finalmente apareceu, e eu apertei o botão do sétimo andar. Se eu não morasse num andar tão alto, teria ido pelas escadas ao invés de ficar esperando. A demora dentro daquele cubículo só prestou pra me deixar mais ansiosa, com vontade de roer as unhas. Eu já estava batendo o pé impacientemente quando enfim a porta abriu e eu saí para o corredor, em direção à porta do meu apartamento.
Por um instante, me perguntei se eu estava ficando louca. Haviam cinco prédios naquele condomínio, cada um com doze andares, cada andar com quatro apartamentos. Quantas pessoas moravam naquele lugar? Quantas pessoas viviam só no meu prédio? Quero dizer, era possível que ela conhecesse outras pessoas ali, certo?
Era mais fácil lidar com isso do que com o fato de que ela estava, por alguma razão, indo pra minha casa.
Mas cheguei mais perto da porta do meu apartamento, tentando não fazer aquele barulho irritante que se faz quando respiramos muito rápido. Encostei o ouvido na porta. Não dava pra distinguir nada do que era dito lá dentro, mas eu tinha certeza absoluta de que havia mais alguém com a minha mãe ali. Ou isso, ou ela estava falando com a televisão.
Eu tinha ficado na frente do prédio por um bom tempo, e ninguém desconhecido havia entrado no prédio. Somente ela. O que queria dizer que, por alguma razão, ela estava ali. E por alguma razão ainda mais estranha, minha mãe tinha deixado ela entrar.
Passei um minuto ou dois em frente à porta, pensando no que deveria fazer. Ir embora e depois confrontar a minha mãe?; ou entrar em casa e descobrir imediatamente que merda era aquela?
Decisão difícil.
Eu concluí que estava pensando demais. Respirei fundo e coloquei minha chave na fechadura. Eu ia fingir que tinha voltado por acaso porque tinha esquecido qualquer coisa e ia fazer aquela cara óbvia de “mas que porra é essa?”
(Me perdoem pelos palavrões. Eu estava realmente nervosa).
Girei lentamente a chave, então abri a porta. Não tinha ninguém na sala, e agora eu tinha certeza de que minha mãe estava falando com alguém. Dava pra escutar a conversa, mas eu não estava prestando muita atenção. Entrei bem quietinha, e fechei a porta com o maior cuidado. Andando na ponta dos pés, atravessei o apartamento – o que requer tipo, três passos, já que ele é realmente pequeno – em direção à cozinha. Era e lá que vinha a conversa.
- Você tem certeza de que não quer um café? – minha mãe ofereceu, com a voz nervosa que ela exibia desde aquela ligação de manhã. Pensando melhor, agora eu percebia que provavelmente não havia cliente nenhuma no telefone aquela hora.
- Não, Abigail, obrigada mesmo. – a voz irritantemente educadinha da Marina respondeu – Por que você mandou a Lolita sair?
É, por que, mãe?
- Marina, a gente já conversou sobre isso. Não é fácil pra mim mentir pra ela desse jeito.
Um nó se formou na minha garganta. Quer dizer que elas já tinham conversado antes. E muito, pra se tratarem só pelo nome. E que a minha mãe estava mentindo pra mim. Mas que inferno, do que elas estavam falando?
- Eu já teria contado, mas ela... – a Marina suspirou – Ela não gosta muito de mim. Eu já percebi isso. Não sei o que eu fiz de errado, mas ela não vai muito com a minha cara, sabe?
Ah, então ela não era totalmente tapada. Que bom.
- Eu queria ficar amiga dela primeiro, pra então ter coragem e intimidade suficiente pra contar tudo pra ela. – continuou – Eu não posso simplesmente pular na frente dela e dizer “oi, eu sou sua meia-irmã”.
O mundo parou de girar.
Como é que é?
Meia irmã?
Deus, você ta brincando com a minha cara.
Eu fiquei tão... abismada, que sai de onde estava e fui até a porta da cozinha. Minha mãe ficou verde logo que me viu. A Marina estava de costas pra mim, então só foi me olhar quando percebeu que minha mãe estava quase tendo um ataque cardíaco.
- Como é que é? – consegui perguntar. Minha voz quase não saía. Minha respiração estava pesada, e de repente o mundo parecia pesar quilos sobre as minhas costas.

Isso não podia estar acontecendo. Não comigo.

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