Para que eles saibam

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Eles disseram que remédios para emagrecer estão liberados outra vez. Mas será que eles sabem?

Será que sabem das pílulas que tomei escondido, dos efeitos colaterais que suportei? Será que eles sabem do peso rápido que perdi e tornei a ganhar, da dependência que eles me causaram? Será que querem saber?

Eles disseram para colocar espelhos na cozinha. Mas será que eles sabem?

Será que sabem das horas comendo em frente ao espelho até que eu tivesse nojo de mim mesma por sentir fome? Será que ele sabem que não consigo ter espelhos no meu próprio quarto, porque sou incapaz de lidar com o meu próprio reflexo? Será que sabem sobre as vezes em que eu chorei em frente a ele e me xinguei de burra, de fraca e de incapaz, porque por mais que eu quisesse, por mais que eu tentasse me livrar delas, todas as minhas falhas ainda estavam ali? Será que se importam em saber?

Eles disseram que jejum é bom. Mas será que eles sabem?

Será que sabem das horas que eu jejuei para merecer uma refeição que eu queria muito, ou para me punir por ter comido demais? Será que eles sabem dos desafios que fazia comigo mesma, tentando transformar cinco horas em seis, e seis em oito, e oito em doze, e doze em vinte e quatro? Será que faz alguma diferença?

Ninguém precisou me dizer para fazer. Mas se tivessem dito, eu teria feito. E teria feito porque acreditava que era bom, que era certo, que era eficaz. Teria feito porque estava desesperada. Não porque sou fraca. Não porque queria estar doente.

Mas porque o mundo
não para
de tentar
me fazer
diminuir

Será que eles sabem?


Texto inspirado neste post.

Schadenfreude

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A miséria adora companhia. Já ouviu esse ditado?

Há um pouco de verdade nele; nada me tira mais de uma fossa do que saber que alguém (preferencialmente, o mesmo alguém que me colocou nessa fossa) está pior do que eu. Saber que você não está na pior das situações pode ser reconfortante, por mais egoísta e horrível que pareça.

Mesmo assim, o contentamento com a desgraça alheia deveria ter um limite. Somos todos humanos, é claro, imperfeitos à nossa própria maneira; nenhum de nós está a salvo de sentimentos ruins. Mas nada a meu ver tem impacto tão negativo quanto desejar e se felicitar com a dor do outro.

Está em coisas pequenas, quase insignificantes: naquele bem feito que a gente diz quando uma pessoa que a gente não gosta se dá mal; na risada que a gente dá quando descobre que nosso ex está na pior enquanto nós demos a volta por cima; no sorriso que a gente não consegue evitar quando o vilão (da vida ou da ficção) é punido de alguma maneira horrível. Às vezes, a gente se engana chamando esse sentimento de justiça -- na real, é algo muito mais sombrio do que isso.

Talvez seja inocente e até um pouco hipócrita da minha parte desejar que esse tipo de alegria às custas do sofrimento dos outros desaparecesse. Quão difícil pode ser apenas viver e deixar os outros viverem, e não ver graça no horror de outra pessoa? Mas sei que o buraco é mais fundo que isso. Esse sentimento não faz de nós psicopatas, torcendo ou até mesmo causando o pior aos outros, mas apenas humanos. Não bons, nem maus: apenas humanos.




Texto escrito à partir da sugestão de Petra Leão no Twitter.

Mar aberto

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Ela sempre dava tudo de si. Para ela, relações eram como um enorme mar de possibilidades. Não havia meio termo -- eu entra de cabeça, de uma vez, ou simplesmente não entra.

Por não saber como ser menos, ela sempre era mais: mais carinhosa, mais aberta, mais receptiva, mais confiável. Fazia tudo por quem amava, porque seu amor não conhece limites. Doava-se. Das cartas de amor aos muitos favores, dos pequenos esforços aos grandes gestos, dificilmente dizia não.

Então um dia algo começou a incomodá-la. Olhou para seu breve mar e percebeu que tudo aquilo que ela entregava, as ondas não traziam de volta. Não haviam cartas em resposta, nem grandes gestos, nem pequenos favores. Percebeu que, enquanto ela dava tudo que tinha, os outros às vezes a retribuíam com migalhas; às vezes com nada. Enfureceu-se: decidiu que não seria mais a nadadora fiel que dá de toda sua energia a cada braçada, e se tornaria mar, como os outros, tomando o que lhe dessem sem se preocupar em retribuir mais que uma maré boa quando assim lhe conviesse.

Mas não durou muito, percebeu que não sabia viver assim. Quem é copo cheio não consegue se contentar em ser copo vazio. Aquele tudo que ela costumava entregar a todos fazia falta principalmente a ela, pois que graça tem uma relação em que nada se cede, nada se doa?

Por não conseguir mais ser menos, tornou-se mais novamente. Escreveu suas cartas. Prestou os favores. Fez suas grandes declarações. Foi fiel a si mesma. Entendeu que não se atirava de braços abertos ao mar porque esperava que o mar fosse igualmente bondoso com ela; não há como cobrar reciprocidade do imprevisto. Talvez nadasse eternamente, talvez se afogasse, talvez voltasse à costa. Descobriu que o mais importante era mesmo isso: jogar-se ao mar. Entregar-se. Sem esperar nada em troca.


Texto inspirado na sugestão da @jacdeoliveira no Twitter 
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger