Sobre ler

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Uma das coisas que mais me encanta sobre ser escritora é saber como é ser leitora. E não existe nada melhor do que ficar preso em uma boa leitura.

Tenho certeza de que vocês sabem como é a sensação; começa fácil, descompromissado. Você diz "vou começar esse livro aqui", talvez com expectativas boas, talvez sem conhecer nada do enredo. Abre o livro ou destrava seu kindle, arranja um lugar confortável pra sentar, e se deixa cercar pelas primeiras páginas.

Se você tiver sorte, é aí que as coisas ficam boas. Você se propõe a ler só algumas páginas, mas quando vai ver, já se passaram seis capítulos e você não se lembra mais do próprio nome. Você completamente dominado por aquela história e seus personagens, e os conflitos deles, tão mais complexos e interessantes do que qualquer coisa que você já tenha experimentado na vida, já são os seus conflitos. Você talvez já tenha escolhido um lado, já tenha preferido um casal, rido alto de alguma piada ou simplesmente de nervoso.

Então, se você for que nem eu, um livro deixa de ser só um livro. Você discute em voz alta com ele, responde os personagens como se falassem com você. Os acontecimentos inesperados e cada plot twist que ferra com a vida do seu personagem preferido se torna uma ofensa pessoal. Você até tenta largar o livro pra ir fazer alguma outra coisa, mas descobre que agora é tarde demais pra tentar ter uma vida: você PRECISA terminar de ler. Então se conforma em não fazer mais nada o dia todo até terminar aquela história.

E quando você termina... ah, quando você termina, é como se tirassem um pedaço seu. Você sente que perdeu um amigo, um ente querido, mas ao mesmo tempo, se o final for bom, você fica feliz por eles terem ido embora -- o sofrimento acabou. Então você passa uns dias de ressaca, lembrando daquela história como quem lembra de uma memória muito boa, e torce pra que o próximo livro seja tão bom quanto este.

Não sei em quantas pessoas nem se já causei essa sensação com as minhas histórias. Mas, se eu tenho uma meta, um sonho, um objetivo, é esse: que alguém, em algum lugar, esqueça da vida e de quem é por algumas horas enquanto lê algo que eu escrevi, e que eu seja uma memória maravilhosa um dia sobre uma história inesquecível que ela sempre vai recomendar pra alguém. Como autora, não tem recompensa maior.


(auto)conhecimento

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Nós nunca conhecemos ninguém de verdade. Você pode passar uma vida inteira com alguém, e ainda assim, se surpreender com as coisas que descobre dia após dia.

Esse é um dos ensinamentos da minha mãe que mais carrego comigo. Sempre que eu penso que entendo completamente alguém, faço questão de me lembrar que seres humanos são complicados, e que tempo nenhum é capaz de fazer com que a gente compreenda alguém 100%. E, de uns anos pra cá (ou talvez mais especificamente nos últimos meses) estendi isso para se aplicar a nós mesmos.

Nós nunca nos conhecemos de verdade. A gente passa a vida inteira sendo a gente, e mesmo assim, nos surpreendemos com as coisas que descobrimos dia após dia.

Eu sei que parece esquisito, mas pensa bem: o quanto você é consciente das suas ações, das suas qualidades e defeitos, assim como é com os outros? Se eu te pedisse agora para enumerar as características marcantes sobre o seu melhor amigo, você poderia listar várias, porque provavelmente passou algum tempo prestando atenção e aprendendo com e sobre ele/a pra desenvolver a relação que vocês tem agora. Mas nós fazemos isso com nós mesmos? Será que a gente gasta esse mesmo tempo prestando atenção nas coisinhas que tornam a gente a gente pra desenvolver nosso próprio relacionamento com nós mesmos?

E qual é a medida certa pela qual a gente mede quem nós somos? Somos as nossas atitudes, sem desculpas ou amarras, ou somos uma consequência do que foi feito conosco, da maneira como fomos criados? Quanto de mim é autêntico e quanto é um reflexo de quem convive comigo? E quem pode garantir que eu não terei, um dia, uma reação aparentemente atípica, dependendo do contexto ou da situação -- quem sabe um dia eu me torne uma pessoa diferente por outras circunstâncias, ou aja contra coisas que um dia eu acreditei porque acreditar em uma coisa e efetivamente fazê-la são coisas bem diferentes? Quem garante que eu sei o bastante sobre quem eu sou pra poder garantir que eu serei essa pessoa que eu acredito ser até o fim da vida?

É uma percepção estranha, mas também muito libertadora. Porque a partir do momento em que a gente entende que não se conhece, pode começar a tentar. Passa a prestar atenção em si mesmo, no mundo à sua volta, e em tudo que torna cada um de nós como é. Passamos a ser nossos melhores amigos. E quem sabe olhar para si mesmo com atenção seja o primeiro passo para poder olhar pro outro de verdade, e se deixar ser olhado em troca. Vai ver, minha mãe estava errada: você pode, sim, conhecer tudo sobre uma pessoa. Mas talvez precise conhecer tudo sobre você primeiro.

Ponto final

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Eu não sei mais onde acaba o começo e começa o fim. Parece que já faz uma eternidade que os meios tomaram pontos finais e as vírgulas se tornaram interrogações. Talvez faça mesmo. Talvez tenha sido ontem.

Não foi sobre as cartas não lidas, as mensagens não respondidas, nem sobre as vezes em que encarei o vazio. Foi sobre o todo e sobre nada em particular. Foi sobre nós. Sobre mim.

De você, guardo as letras num papel, as fotos que não quero mais ver, as musicas que não consigo mais ouvir e os textos que um dia eu lerei com saudade do sentimento que não tenho mais. Guardo as lembranças e a parte boa, que é tudo que posso guardar. O resto é história, daquelas que a gente não conta porque não vale mais a pena. Vai ficar pra outra hora, pra outro alguém, outra vida. Já foi.

Não sei o que você guarda de mim, nem com que entonação fala ou pensa meu nome - se é que pensa. Um dia, daqui um mês ou um ano, vou virar história na sua boca, aquela garota que um dia conheci e hoje não sei mais quem é. Não deu certo, ou deu até não dar mais.

Virei a página sem nem saber como nem quando, encerrando um capítulo longo com final entreaberto. A história continua. Todos somos histórias, no fim. Com nós dois não poderia ser diferente.
 
Larissa Siriani | Copyright © Design por Naiare Crastt • Mantido pelo Blogger